LiteraLivre n º 3
P. Campanario Florianópolis / SC
O Senhor Sorridente
Esperei o senhor de idade descer do táxi. Cumprimentamo-nos com boas-tardes e sorrisos e entrei dando um outro para o taxista. Mas este, pelo contrário, não deu bola para minha saudação, recebeu-me com o cenho fechado e já foi logo me inquirindo a respeito do velho que acabara de sair.“ O senhor cumprimentou-o, não? Conhece-o ou equivoco-me?”“ Sim, somos conhecidos, sempre batemos papo ali no bar da esquina, perto de onde o senhor deixou-o. Algum problema?”
“ Veja só; terminada a corrida, o taxímetro marcava 24 Reais. O velhote deu-me 20 e disse:‘ Já descontei os quatro que marcava o medidor quando entrei’, deu-me um boa noite e saiu sem titubear e, ainda por cima, sorriu. O senhor Pedro percebe a situação? Desagradável no mínimo, não?”
“ Ele sorria realmente ao sair e até cumprimentei-o porque nos conhecemos, mas não podia saber nem imaginar que ele tinha deixado de pagar a bandeirada.”
“ Pois o deixei ir porque de brigar não gosto, o sujeito avança na idade e isso é coisa de caipira que nunca tomou táxi. É um ignorante, pois não?”
“ Não acho que seja ignorante. Ele nasceu aqui e certamente conhece a bandeirada. Além disso, é advogado. Ele é tudo, menos ignorante.”
“ Se ele sabia que existe a bandeirada e não pagou, só pode ter sacanagem nessa história. Ele é desonesto! Também não está de acordo?”
“ O senhor me desculpe, mas se tivesse insistido pra ele pagar, ele pagaria. O senhor insistiu?”
“ Não, não insisti. Nunca insisti pra freguês nenhum pagar. Eu acho que ele me fez de bobo. Ele é velho, sabe que eu não posso agredi-lo. É um provocador, é isso aí!”
“ Não, de jeito nenhum. Outro dia, no bar, ele me explicou porque ele é contra a bandeirada. Diz ele que nada mais justo que ela exista pra evitar que o taxista faça viagens curtas, de uma quadra, por exemplo, a preço de banana. O problema é pra quem vai fazer uma viagem longa. Nesse caso, a bandeirada não serve pra nada! E hoje os taxímetros são eletrônicos e podem ser programados. Ele propõe uma bandeirada proporcional ao valor pago no fim da corrida. Se o cara anda um quarteirão, paga integralmente os quatro Reais, se vai longe, acima de vinte Reais, não paga nada, justamente como ocorreu há pouco. No meio disso, bandeiradas proporcionais ao tamanho do recorrido. Ele chama isso de bandeirada variável.”
“ É, o homem é inteligente, reconheço. O senhor sabe que eu já tinha pensado nisso? Realmente, pra quem vai fazer uma viagem longa, seria mais
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