LiteraLivre nº 1
Isto pode explicar por que eu não parei, mesmo hesitando um momento, quando, no
meio de uma curva, na escuridão diante de mim, uma silhueta branca apareceu de
repente. Uma grande sombra pálida, com as asas abertas: tinha de ser uma ave de rapina
noturna na caça, talvez uma coruja de celeiro. Parou por um momento no ar, na luz
amarela dos faróis, e desapareceu, em quanto meus olhos tentavam reconhecer a
estrada.
Um instante - ou um século - mais tarde, retorno a mim de um breve desmaio, a testa
coberta de suor frio. Apito de morteiros. Eu estou sempre na estrada, na noite de
tempestade, mas estou conduzindo um veículo blindado. De dois miradouros, colocados
em penhascos com vista para o caminho, os raios de luz passam na montanha em busca
dos rebeldes. Rajadas longas de metralhadora cortam a noite. Como sombras que
desaparecem na escuridão, os fellagha não se veem. Meu carro passa no fogo cruzado
de balas traçadoras e vejo diante de mim, claramente, uma máscara sorridente: uma
espécie de harpia, empoleirada sobre o capô do meu caminhão. Como se fosse de
fósforo, a larva brilha de luz própria e paira e mexe, aqui e ali.
Sinto-me em perigo imediato, o fantasma bailarino me assusta mais que as rajadas e a
tempestade. Tenho que me forçar a ficar firme, os olhos bem abertos na noite, tenho que
tentar não distrair. Sei instintivamente que, se seguir com os olhos os movimentos da
aparição, escaparia para fora da estrada, descendo a ravina íngreme. O vento traz
rajadas violentas de chuva. O confronto parece ter acabado, mas alguns tiroteios isolados
ainda ecoam na escuridão. Os olhos correm entre as sombras de tuias e carvalhos,
procurando o brilho de uma arma ou o movimento das capas dos rebeldes. Em vez disso,
vejo só redemoinhos e ramos, balançando nas rajadas do vento; mas no jogo de luz e
sombras, às vezes, até mesmo transparece o sorriso atroz da visão. A máscara me
convida para acompanhá-la. Gira e vem descansar em uma clareira, a cerca de cinquenta
metros da estrada.
Então, a face do sorriso satânico explode em mil fragmentos: estilhaços de luz,
madeira, metal e terra húmida. Um morteiro atingiu uma barraca, um pequeno depósito de
munições. Longos minutos de fogos de artifício. Eu paro, saio do veículo e me aproximo
cautelosamente à clareira. Deitado em seu próprio sangue, um jovem soldado camuflado,
com o rosto desfigurado pela explosão, engasga e morre em meus braços. Eu nunca vou
saber se era um francês, um mercenário da Legião ou um rebelde. Nenhum sinal o
identifica, e face da morte os jovens são todos iguais. Ao longo dos últimos suspiros, ele
tira do bolso o retrato de uma menina e aperta convulsivamente na mão, como se
estivesse tentando se agarrar a essa última esperança, a última memória. Deixou-o lá, na
chuva, na escuridão e no silêncio que se tornaram absoluta. Na estrada, com os faróis
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