LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Thiago Andrade
Fortaleza/CE
Xadrez xamânico em Xangai
Disrupção onírica. A madrugada estava quente. Quentura de rachar o
crânio. Sam não conseguia dormir. Evitou ao máximo levantar para não
atrapalhar o sono de Carolina. O ventilador cospe vento morno. Quarto abafado.
A janela sempre dormia fechada por medo dos morcegos. Sam deslizou dos
lençóis, com cuidado, nem ao menos relou no Sheik, o siamês de estimação.
Quanta disposição dos dois queridinhos dormirem num forno daquele.
Calor insuportável. Ir a cozinha, tomar um analgésico, litros de água gelada
e se refrescar na varanda, essa era a motivação de Sam. A cabeça raspada
gotejava, a camisa branca grudava nas costas, um nojo. A casa estava um breu.
Seria um desafio passar por toda a sala sem esbarrar em nada ou quebrar os
bibelôs artesanais de Carolina. Sam evitou a ligar as luzes . A luminosidade
auditiva da TV seria sua guia até a cozinha. Volume baixinho.
Na geladeira havia uma jarra de suco de goiaba, meia caixa de leite, pacote
de biscoito de morango, vidro de adoçante, pacote de chá, uma colher e duas
cervejas. Sam pretendia emagrecer, para evitar os transtornos como o que vem
passando. Estar doze quilos acima do peso ocasionava sérios problemas nas
articulações dos joelhos e dificuldades em vestir os shorts branco, aqueles, os
que deixavam Carol excita/da/nadinha e sufocavam a xarola. Xarola? É.
Tomar uma cerveja gelada com analgésico, mordiscar dois biscoitos, fumar
um cigarro. Estavam no décimo terceiro andar. Lá embaixo um canal de esgoto.
Um carro tipo Belina branca enferrujada com péssimo som no escapamento
passa zigzagueando quase quase cai no córrego de bosta. O cheiro de lodo era
insuportável, mesmo naquela altura.
“Sam? O que houve?”
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