LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Paulo Luís Ferreira
São Bernardo do Campo/SP
Preconceito de Raça
Salomão acordou meio enfadado, um tanto desalentado. Não era para
menos, há dias vinha se empenhando em procurar uns afazeres que lhe
trouxesse estabilidade. Estava cansado da madorra do dia a dia. Cansara das
maçadas cotidianas; já não sabia onde procurar uma ocupação que o alentasse.
Estava enfastiado com aquela vidinha sem lucros, já não suportava aquelas
correrias atrás de pneu de carros, aguentar aqueles horríveis gás carbônicos
fumarentos dos escapes das motos no focinho. Viver a lamber ossos já ruídos de
tantas e tantas bocas. Decidira, então, a procurar um emprego.
Antes, porém, iria dar uma passadinha na porta do açougue, quem sabe logo
cedo encontrasse um osso carnudo. Decidido, tirou o rabo de entre as pernas;
para demonstrar dignidade, ergueu os quartos, abriu a boca num bocejo bem
espichado, deu umas passadas de patas nas orelhas, esticou as pernas dianteiras
depois a esquerda, se espreguiçou, deu uma fungada no ar e seguiu até a porta
do açougue. Lá chegando o que ganhou foi um balde de água suja nas fuças,
jogada pelo desgraçado do açougueiro. “Filho de uma... Logo cedo da manhã
receber uma cacetada dessas é de arrebentar qualquer um...” – rosnou Salomão
para consigo mesmo, certamente muito indignado – Mas não há de ser nada...
Hoje é dia de feira no bairro, lá devo arrumar alguma coisa para o desjejum. –
presumiu ele.
Na feira perambulou por trás de umas barracas, mordiscou umas frutas e
legumes, mas esses não eram dos gêneros alimentícios que lhe abriam o apetite,
principalmente sendo de manhã cedo ainda. Pela manhã o bom mesmo era um
bom osso carnudo, mas fruta, eca! A banca de peixe estava jogando fora umas
barbatanas e uns rabos, mas esse era o tipo de comida para aqueles babacas dos
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