Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 164

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Paula Peregrina Rio de Janeiro/RJ Afetos usados Porque o amor nasce com a gente ele não fica em conserva, é rodado, vadio, passa por muitas mãos sem chegar a tocar o espírito, se desgasta e depois se revigora, parte para novas jornadas, dedicamos palavras, músicas, canções, damos a todas as artes o nome de uma pessoa que tempos depois se torna pouco mais ou pouco menos que uma memória. Porque o amor não fica guardado em conserva ele vive e se transforma, ganha traços e formas, envelhece ou amadurece, adoece e até morre mesmo, renasce, toma outras feições, aprende coragem e medo, sabedoria talvez, mas nunca sábio em demasia, sua natureza é a do choque com a razão em busca de torná-la menos endurecida. Com o tempo pode ser que ele fique dormente, traumatizado, cheio de cascas a serem arrancadas, das feridas trincadas, acumuladas umas sobre as outras, monstruoso, corcunda, dolorido, frágil, defensivo movido por seu instinto de sobrevivência, porque sim, o amor é animal que resiste no humano, para torná-lo mais humano. E pode ser que depois de tanto pelejar, errar vagabundo nas brechas da vida, sufocado e diminuído pelas desilusões também, pelas obrigações e responsabilidades que vêm e aumentam, pela saúde que buscamos suprir e evitando-o porque nos deixa vulnerável à paixão encarada como doença, encolhido ele permaneça quieto, silencioso, meditativo, até não poder mais. Porque amar é uma escolha como tantas outras da vida, mas diferente por ser inevitável, quando contido o ato, as iniciativas do amor, sempre há que se prender em camisas de forças, se esconder em abismos profundos, em cavernas escuras, em aquários fechados, isolados do mundo, aleijando a alma, só metade da vida. [161]