LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Paula Peregrina
Rio de Janeiro/RJ
Afetos usados
Porque o amor nasce com a gente ele não fica em conserva, é rodado, vadio,
passa por muitas mãos sem chegar a tocar o espírito, se desgasta e depois se
revigora, parte para novas jornadas, dedicamos palavras, músicas, canções,
damos a todas as artes o nome de uma pessoa que tempos depois se torna
pouco mais ou pouco menos que uma memória.
Porque o amor não fica guardado em conserva ele vive e se transforma,
ganha traços e formas, envelhece ou amadurece, adoece e até morre mesmo,
renasce, toma outras feições, aprende coragem e medo, sabedoria talvez, mas
nunca sábio em demasia, sua natureza é a do choque com a razão em busca de
torná-la menos endurecida.
Com o tempo pode ser que ele fique dormente, traumatizado, cheio de
cascas a serem arrancadas, das feridas trincadas, acumuladas umas sobre as
outras, monstruoso, corcunda, dolorido, frágil, defensivo movido por seu instinto
de sobrevivência, porque sim, o amor é animal que resiste no humano, para
torná-lo mais humano.
E pode ser que depois de tanto pelejar, errar vagabundo nas brechas da vida,
sufocado
e
diminuído
pelas
desilusões
também,
pelas
obrigações
e
responsabilidades que vêm e aumentam, pela saúde que buscamos suprir e
evitando-o porque nos deixa vulnerável à paixão encarada como doença,
encolhido ele permaneça quieto, silencioso, meditativo, até não poder mais.
Porque amar é uma escolha como tantas outras da vida, mas diferente por
ser inevitável, quando contido o ato, as iniciativas do amor, sempre há que se
prender em camisas de forças, se esconder em abismos profundos, em cavernas
escuras, em aquários fechados, isolados do mundo, aleijando a alma, só metade
da vida.
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