LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
para o quarto, do quarto ao banheiro e se joga no sofá da sala, capaz de ficar lá
por horas, todos os dias, procrastinando.
Meu corpo é grande demais e ocupa mais espaço do que merece, ele sabe
disso. Onde quer que eu vá, ele gosta de me manter em uma sombra escura.
Nula, oculta. Me faz pensar se alguém realmente já me viu às claras.
Ultimamente, meu corpo começou a me contar histórias noturnas que me dão
medo. São os chamados ‘pesadelos’. Talvez ele não goste muito da solidão. Acho
que meu corpo está ficando meio desesperado, desejando um toque, um carinho,
abraço ou alguém do lado. Em decorrência disso ele sai amando tudo o que vê
pela frente. Corpo exagerado.
Quando escrevo, meu corpo vem e tira toda a roupa. Nu, nunca aprendeu a
dançar. Desengonçado, só sabe se esconder. Ele encontra um esconderijo na
minha boca, põe pedaços de unhas dentro dela, puro sinal de desespero. Eu as
engulo.
Engulo as unhas ruídas assim como engulo os sapos, é por isso que odeio
sapos, mas dentro de mim há um brejo inteiro. Tudo desce de um jeito errado.
Não vai redondo tipo cerveja, vai meio quadrado, alojando tudo na minha
traqueia, não me deixando respirar sem me lembrar de tudo aquilo que eu
engoli. Então, é claro, todo texto que escrevo é sobre o meu corpo e sobre como
todas as minhas palavras soam como tentativas de superar algo que me dói.
Escrevo porque pelo menos assim meu corpo se despe. Mas aí termino e ele
novamente se veste. Me pergunto se me sinto melhor. Talvez se eu disser que
sim ele me deixe finalmente em paz..., mas meu corpo sempre fica. Ele é leal
demais. Eu não sei fugir de mim.
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