Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 115

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Se vestiu, pegou os livros e foi esperar o ônibus para a universidade. O primeiro de três. Tinha que sair mais de hora antes, porque, além de longe, era manca. A perna esquerda encurtada, reminiscências de um acidente de carro quando era criança, sorte que estava viva. Aquele dia de outono sem cor deixava tudo triste. E, mesmo que tentasse não ficar também – era grata por estar viva – certos dias ficavam insuportáveis. Pobre aleijada, que nunca teria uma vida normal, dessas de arranjar um namorado para ir ao cinema sábado à noite. Enfiou os fones no ouvido e ficou ouvindo música no ônibus, durante a viagem que não chegava nunca. Quando a aula acabou, à tarde, foi para a biblioteca estudar e continuou ouvindo rap até acabar a bateria do telefone. Olhou para o lado e para trás. Um moço sentado sozinho, com uma porção de livros na mesa. Não era muito bonito, mas tinha uma bondade cintilante nos olhos. Então foi até ele pedir um carregador de celular (coisa que ele não tinha) e aproveitar para puxar assunto, afinal, se sentia triste e sozinha aquele dia. Mas ele foi reticente. Ela sorriu e voltou para a mesa. Se sentiu enormemente triste. Quem, um dia, vai querer uma moça que manca de uma perna. ***** Quando eu vi, a guria bonita que (não) precisava de carregador estava chorando. Chorava em silêncio e discretamente, de uma forma que só se podia notar olhando bem o brilho bonito de uma lágrima escorrendo por sua face direita. Eu tinha perdido a noção da hora, mas já estava escuro, a biblioteca não demoraria a fechar. Já estava bastante cansado de ler aqueles textos de utilidade duvidosa e, com sorte, poderia achar um café aberto, ali pertinho. Me levantei e, com muito cuidado, fui até ela. Abaixei, me apoiando nos calcanhares, e, falando baixinho, perguntei: - Licença, moça, mas você gostaria de tomar um café comigo ou algo assim? [112]