Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 114

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 José Renato Resende Uberlândia/MG As Coisas Lindas Estava na biblioteca. Primeiro piso, embora a maioria dos meus amigos ache que é o segundo, pois o primeiro seria o térreo. Mas térreo é térreo, então eu realmente estava no primeiro piso. Uma guria se aproximou de mim, fez sinal de que queria falar, porque eu estava com fones no ouvido, escutando música clássica, Vivaldi ou Bach, como sempre, são meus preferidos. Era uma moça muito bonita. Eu a olhei, falei um “oi” meio desajeitado. Então ela perguntou se eu tinha um carregador de telefone que pudesse emprestar. Fiz uma breve pausa, um tanto dramática, por um motivo bem simples. Eu sabia que não tinha nenhum carregador comigo, tinha deixado o meu em casa. Mas não queria que ela fosse embora. Pedi para esperar e revirei minha mochila, não como fingimento, mas para demonstrar boa vontade. E se ela pensasse que eu estava mentindo? Ninguém sai de casa sem carregador, é o fim do mundo. Mas não tinha. Disse um “não” sem graça e ficou por isso mesmo. Ela agradeceu e foi embora. Na verdade, acho que ela não queria carregador de celular. Queria – isso sim – puxar assunto. Bibliotecas conseguem ser uma ilha de conhecimento e de solidão, ao mesmo tempo. Mas, de tão imerso que eu estava em meus estudos, deixei passar. Ela continuou sozinha e eu também. ***** Eram umas seis horas da tarde e, como estávamos no outono, já começava a escurecer. Ela estava como uma enorme vontade de chorar, e não fazia ideia do porquê. Mais do que isso, estava com olhos de choro, inchados, como se deles tivesse jorrado um rio de lágrimas, ainda que não tivesse caído nenhuma. Estava triste, mas não conseguia chorar e isso a deixava ainda pior. Mais cedo, quase doze horas antes, acordou com o sol batendo no seu rosto depois de atravessar a veneziana quebrada da janela do seu quarto. Paciência, e ela tinha muito, pois se levantou sem reclamar e colocou música no telefone enquanto tomava banho. Projota ou Emicida, o que mais gostava de ouvir nessa vida. [111]