LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
um vento de insensível frio. Sentimos algo intrínseco e diferente naquele lugar
que tão logo desvelou uma montanha jamais descrita em mapas de nosso mundo
ordinário.
Os relógios rodavam como a qualquer tempo, mas num passo atrás víamos
ele desacelerar contra todos prognósticos físicos plausíveis.
— Ao aproximar os tempos, ao esticá-los, os segundos podem durar uma
eternidade. — Proferiu minha amada cônjuge ante os mistérios avassaladores
que sobrevinha a olhos vistos de mortais como nós.
Que subterfúgio seria aquela bruxaria? Pensou minha analítica mente
resiliente a incompreensão do desconhecido. Adentramos terras dentro das terras
através dos tempos dentro dos tempos à espera do inesperado enquanto
lembrávamos das palavras do moribundo ancião vítima da fatalidade do mortal
mundo da sã consciência. Mentes ordinárias não poderiam compreender aquilo
pois o infinito não cabia no finito de nossas mentes.
Caminhamos por longos minutos sejam eles segundos em nosso mundo ou
não. Mas nossos pés levaram até um horizonte donde se fitava um imenso
império reluzente como ouro, o qual as edificações como castelos pontudos
ameaçam cortar o tecido do espaço-tempo perfurando a trama de nosso mero
mundo de cotidianos medíocres e simplórios. Doravante li as teorias de um louco
o qual teria se desventurado por tais terras além das terras o qual falava que a
mecânica quântica desvelava a inicial natureza de outras dimensões as quais as
leis mortais da relatividade não se aplicavam. A 'mecânica quântica' era a guardiã
de outros universos, segundo o débil homem balbuciante.
Sobretudo rezava a lenda que naquele lugar havia uma porta misteriosa que
por séculos ninguém nunca conseguiu abrir, pois dizia a profecia que um
escolhido abriria a porta ao trazer o conhecimento da verdade. Mas o tirânico
Império de Tendor que dominava de modo brutalmente severo aquelas terras
desejava abrir a porta e se apossar de seu misterioso conteúdo, excluindo todos
demais para se ter exclusividade em acesso, fosse qual fosse este conteúdo.
Poderia nossa finita sã consciência ampliar os horizontes da existência ao
infinito de tal loucura?
O imponente Império de Tendor erguia-se de modo soberbo e tenebroso no
horizonte com seu jugo desigual de dor e aflição a seus habitantes como num
reino nas entrelinhas da trama de nosso espaço-tempo. Quando finalmente
fitamos o que aparentava ser uma vila de camponeses num estado de semi-
miséria soubemos que logramos êxito ao perfilar aquelas casas rudimentares.
Tão logo crianças maltrapilhas nos cercaram falando uma profusão de línguas
diferentes como se o lugar fosse uma Babel dos flagelos humanos. Mas ouvimos
algo dentre línguas mesmo desconhecidas um português não menos rudimentar,
como muito antigo.
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