Revista LiteraLivre 17ª edição | Seite 86

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Eni Ilis Campinas/SP Separar o Arroz Separar o arroz, mais uma vez. O pano na mesa. Uma mão na tigela e a outra a pegar um bocado de arroz e espalhá-lo no pano. O gesto já é tão certo, que segue no ritmo que não engasga e improvisa. Arroz branco e seco e silente. É apanhado, é espalhado e aqui e ali o que fere a brancura é retirado. Pronto. Punhado novamente ajuntado pela mesma mão que espalhou, separou. Junta e arrasta e aproxima da tigela. Eis a queda. O silêncio se quebra por instantes. O silêncio se abafa depois que muito separado escolhido e juntado. O retirado não quebra o silêncio, fica ao lado. Grão estragado, fiapo e não se sabe mais o quê! Ficam congregados e tão diversos! Não são arroz. Arroz branco e seco e silente. Parados em hiato. A mão segue seu labor até que este acabe. A mão que segura a tigela coloca esta na mesa. O pano não é retirado ainda, mas o que foi retirado do arroz sim. A mão que segurava a tigela torna-se concha, a mão que separava, escolhia , juntava, repete o gesto. Repetição diferente porque não é o arroz branco e seco e silente. O que segue agora para a concha da mão é o separado, que junto cai na mão. Nenhum ruído a findar o gesto – gesto que nãos se encerrou. Com a mão que leva o separado, levanta-se e um passo destoado do outro segue no ritmo tão certo quanto o de ter escolhido o arroz. A perna mais curta ora adiante ora atrás, não interrompe o caminho já gasto da mesa até a porta, da porta até o quintal e no quintal a terra que recebe, uma vez mais, o que não é [83]