LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Elvio Bressan
Porto Alegre/RS
Recortes e retalhos
Hoje Helena acordou consciente. Não procurou por Alba. Mal me
cumprimentou e, ao ouvir os ciganos vizinhos entoarem uma canção na língua
deles, resmungou que só poderiam ter sido aqueles malditos que haviam levado
nossa menina. É um dos dias em que não receberei nenhuma ligação da polícia
dizendo que encontraram minha mulher atirada em algum canto por aí. É como
uma roleta-russa. Nunca sei se terei minha esposa de volta, a Helena com quem
me casei, ou se encontrarei essa mulher composta de retalhos mal organizados
de passado, que irá levantar de bom humor e então vai se arrumar para o
trabalho e procurar por Alba.
Hoje tenho a pior versão. Juntei os cacos cuidadosamente, desta vez foi o
porta-retratos de uma das fotos do nosso casamento. Por alguns segundos olhei
a foto rasgada, juntando os pedaços: não havia Alba, nem gritos, nem
alucinações. Helena tinha um sorriso largo e brilhante que já nem cabe mais
nesse rosto magro que ela tem agora.
Helena parou de viver quando Alba sumiu. Agora só existe. No começo dizia
que era melhor ter certeza de que nossa filha estava morta, assim não seria
obrigada a viver com a possibilidade de vê-la de outra vez.
Eu tento todos os dias me livrar das lembranças, mas essa casa está cheia
delas. Doar as botas de chuva e queimar aquele pijama foi um alívio, mas não
posso eliminar os mosaicos ou o quadro do Santo Anjo do Senhor. Isso seria
muito dolorido, até mesmo para mim. Semana passada era o aniversário de Alba,
catorze anos, e Helena insiste em guardar os sapatos tamanho trinta.
Nas crises mais fortes, tenho que ajudar a limpar o sangue que escorre dos
abortos imaginários e tranquilizá-la. Tenho muito medo de perder a razão como
ela. Estou obcecado pela última vez que vi minha filha. Fico remontando a cena
milhares de vezes na minha cabeça.
Alba recortava rostos de revistas velhas com uma tesoura pontiaguda, depois
cuidadosamente fazia mosaicos com eles, parece que queria sempre ter olhos em
sua direção. Lotava sua parede com aqueles mosaicos. Helena dizia que ela
poderia ser artista.
Sentei ao seu lado na cama, peguei sua pequena mão e sorri. Ela olhou toda
a extensão do meu rosto, como se procurasse os contornos, como se quisesse
recortá-lo e colar na sua parede. Eu procurava traços meus nos seus olhos, mas
só via Helena.
Alba conversava pouco comigo. Permanecemos em silêncio. Preparei-me
para sair do seu quarto quando ela colocou minha mão espalmada sobre seu
joelho e, imobilizando meu pulso, num movimento rápido, cravou bem fundo a
tesoura.
IG: @elvioart
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