Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 55

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Carlos Manoel Passos Vaz Junior Franca/SP Antibiografa Rejeito quaisquer apresentações Nenhuma vez fui convidado Desde as pomposas às mais informais (Aquela visita ao deserto do Atacama Não possuo data de nascimento digna de ser contada Nós dois grudados pelo frio Não me chamo Julia, Amapola, Lucíola ou Ofélia, tampouco Céline Com os lábios tremendo e as faces coladas): não fui Não costurei minhas próprias roupas, Não me chamo Paulo, Roberto, César, Jeová, ou Judas Nem montei uma fábrica têxtil em meio a Revolução Nunca produzi trabalho digno de nota Jamais meus escritos foram lidos Não armei meu próprio enterro na selva Em nenhum momento minhas obras foram citadas Nunca acendi uma fogueira raspando duas pedras Nenhum feito meu paira decentemente sobre esse Universo Nem dois galhos Não pulei poças d’água sorridente para uma lente de 50mm Sequer atravessei ruas ou pontes (correndo e monumentais) Nem sequer memorável encarando relógios Em tempo algum tive drones, ou tirei selfies com meus pupilos Não acendi um cigarro depois do sexo na Nouvelle Vague Não li o evangelho de Mateus Tentei o de Paulo sofri um acidente Jamais também os evangelhos dos hereges, Saramagos e afins Discordo de todas as ideias puras Nego sem medo a apriorística De modo algum me preocupei sexta- feira à tarde sentado num jardim Mas não aceito empiria plena E nada disso constará em meu epitáfio Nem despreocupado fiquei no jardim coçando as nádegas Nem os detalhes do pôr-do-sol Não vivi longas jornadas Não comi o pão que o diabo amassou segunda-feira De maneira alguma comissionados aceitei Li tudo errado, então nego que li cargos [52] Sequer acreditei que coceiras comilanças eram só começar Por isso não propaguei os provérbios Desacreditei do que não via e