LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Carla Oliveira
Natal/RN
A vista da janela
Finalmente, depois de muito trabalhar, Marcos alcançou o status financeiro
que lhe permitia adquirir o imóvel pelo qual tanto ansiava. Queria um aparta-
mento exuberante, mas também queria aquele perímetro imaginário de visão que
vem incluído (ele sabia), implicitamente, no contrato. Assim, vislumbrou um
apartamento com vista para o Central Park e se imaginou com o rosto inundado
pelo pôr-do-sol junto as montanhas de Hollywood. Porém, a verdade é que seu
poder aquisitivo ainda não lhe dava nem vista para o mar e se contentou em ter
uma vista definitiva.
Munido de tal privilégio, ele passou a desfrutar da liberdade de andar de cue-
ca pela sala sem se preocupar com a expressão condenatória de uma senhora na
janela a poucos metros de distância. Agora, podia ir e vir em sua casa como qui-
sesse e lançar um olhar desimpedido quando lhe aprouvesse debruçar em sua
própria janela. Porém, não levou muito tempo para descobrir que a vista definiti-
va não está isenta de ameaças. Embora não bloqueiem a vista, existem coisas
que podem turvar a visão e gerar sentimentos adversos, para desgosto do tenro
proprietário. O lote vago, que existia bem ao lado, não oferecia risco de virar um
prédio (assim garantiu a imobiliária), mas atraiu uma pobre família de desabriga-
dos, que ali passaram a expor sua gama de precariedades. Talvez, se tivesse fei-
to negócio naquele apartamento da rua Onório da Fonseca, a visão panorâmica
do cemitério teria sido uma opção mais pacífica. Mas o pensamento logo fez cor-
rer um arrepio na espinha. No fundo ele sabia que o silêncio daqueles que já não
lutam mais pela sobrevivência se tornaria o sussurro dos fantasmas que assom-
bram todo aquele que reconhece a certeza do futuro.
A grande questão é que ele não queria ser perturbado, nem dentro, nem fora
de sua fortaleza pessoal. Queria olhar para fora como quem olha para um quadro
de Monet, com serenidade, com um estado de contemplação bucólica e com o or-
gulho de ter adquirido para si uma porção de mundo da qual a degradação hu-
mana não faz parte. Ele queria a ilusão que só o dinheiro é capaz de comprar.
Afinal, isso era pedir demais?
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