Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 247

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Sara Timóteo Póvoa de Santa Iria, Portugal C xarpe intenso Mário era um daqueles homens para quem era difícil aceitar um «não», sobretudo se vindo de uma pessoa pertencente ao belo e fraco sexo, como ele afirmava. Sentava-se ao meu lado desde a primeira aula, vangloriara-se do seu conhecimento de alemão (cuja pronúncia era de tal modo alicerçada em sons mudos que eu tinha de fazer um esforço consciente para não me rir enquanto reiterava nada perceber dessa maravilhosa língua), insistia em fazer as coisas em modo consola enquanto nós, os pobres mortais (entre os quais se incluía o professor), tínhamos de contentar-nos com o modo design. C# era difícil e enraivecia-me sempre que Mário decidia interromper-me o raciocínio. Reconheço ser bastante temperamental e controlar a ira a custo, sobretudo se movida por atenções por parte de um homem que me desagrada. Esta faceta impetuosa do meu caráter já me expôs a todo o tipo de sarilhos, era por isso que procurava apaziguá-la. Um dia, o sensaborão propôs-se pôr à prova o meu alemão. Afirmou dominar o idioma. Esta plana mentira fora pronunciada por finos lábios com um trejeito de ansiedade e de crueldade que há muito eu aprendera a ler sob os punhos dos homens que me haviam maltratado. Suportei com dificuldade a sua desfaçatez enquanto movia os dedos engordurados sobre o teclado do computador de que eu fazia uso, esmiuçando a lógica de uma língua que eu aprendera ainda no seio da minha mãe. Em frente ao professor e aos esparsos colegas distribuídos pelo espaço da sala de aula, esbocei uma súplica: -Agora não, Mário. Estou a procurar perceber este código; por favor, não me interrompas. Falamos daqui a alguns minutos, pode ser? Ele sussurrou: -Nesse caso, podes ajudar-me a verificar algo no disco? É rápido. Caí na armadilha. Ao abrir o disco externo, reparei que ele o tinha nomeado «intenso» - e ele reparou que eu notara a bizarra nomenclatura. Os olhos brilharam-lhe devido à vitória conseguida por via desta astúcia mesquinha. Foi quando, por fim, as peias que me imponho por uma questão de convenção social cederam por completo. [244]