LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Sara Timóteo
Póvoa de Santa Iria, Portugal
C xarpe intenso
Mário era um daqueles homens para quem era difícil aceitar um «não»,
sobretudo se vindo de uma pessoa pertencente ao belo e fraco sexo, como ele
afirmava. Sentava-se ao meu lado desde a primeira aula, vangloriara-se do seu
conhecimento de alemão (cuja pronúncia era de tal modo alicerçada em sons
mudos que eu tinha de fazer um esforço consciente para não me rir enquanto
reiterava nada perceber dessa maravilhosa língua), insistia em fazer as coisas em
modo consola enquanto nós, os pobres mortais (entre os quais se incluía o
professor), tínhamos de contentar-nos com o modo design.
C# era difícil e enraivecia-me sempre que Mário decidia interromper-me o
raciocínio. Reconheço ser bastante temperamental e controlar a ira a custo,
sobretudo se movida por atenções por parte de um homem que me desagrada.
Esta faceta impetuosa do meu caráter já me expôs a todo o tipo de sarilhos, era
por isso que procurava apaziguá-la.
Um dia, o sensaborão propôs-se pôr à prova o meu alemão. Afirmou dominar
o idioma. Esta plana mentira fora pronunciada por finos lábios com um trejeito de
ansiedade e de crueldade que há muito eu aprendera a ler sob os punhos dos
homens que me haviam maltratado. Suportei com dificuldade a sua desfaçatez
enquanto movia os dedos engordurados sobre o teclado do computador de que
eu fazia uso, esmiuçando a lógica de uma língua que eu aprendera ainda no seio
da minha mãe.
Em frente ao professor e aos esparsos colegas distribuídos pelo espaço da
sala de aula, esbocei uma súplica:
-Agora não, Mário. Estou a procurar perceber este código; por favor, não me
interrompas. Falamos daqui a alguns minutos, pode ser?
Ele sussurrou:
-Nesse caso, podes ajudar-me a verificar algo no disco? É rápido.
Caí na armadilha. Ao abrir o disco externo, reparei que ele o tinha nomeado
«intenso» - e ele reparou que eu notara a bizarra nomenclatura. Os olhos
brilharam-lhe devido à vitória conseguida por via desta astúcia mesquinha.
Foi quando, por fim, as peias que me imponho por uma questão de
convenção social cederam por completo.
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