LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
—Rapaz, se eu pudesse voltar, teria tido menos mulheres. Assim me teria
sobrado mais tempo pros estudos.
— Ué, não tinha como conciliar?
— Como? Eu mentia pra primeira pra estar com a segunda, depois mentia
pra segunda pra poder estar com a terceira... Haja tempo!
Solto uma sonora gargalhada. A resposta me causa surpresa, vinda de um
homem de vasta cultura, professor de Português, Inglês, autodidata em
Matemática, com uma vida plena de saberes e amores. Um verdadeiro “sábio
feliz”.
Eu argumento que, se ele tivesse estudado mais, aprendido mais, hoje a
resposta dele à minha pergunta provavelmente seria: “Gostaria de ter tido mais
mulheres”. “É possível”, ele é obrigado a concordar.
No fim, sempre teremos algo de que nos arrepender, algo que gostaríamos
de ter feito melhor. Eu me despedi do meu avô com a alma ainda meio
melancólica. Pensar nesses assuntos não me faz muito bem. De sábio não tenho
quase nada, de triste tenho um pouco, às vezes. Já na rua, sozinho no frio da
noite, eu cantarolo baixinho: “E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza. E
deixemos de coisa, cuidemos da vida. Pois senão chega a morte ou coisa
parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida”.
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