Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 234

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 —Rapaz, se eu pudesse voltar, teria tido menos mulheres. Assim me teria sobrado mais tempo pros estudos. — Ué, não tinha como conciliar? — Como? Eu mentia pra primeira pra estar com a segunda, depois mentia pra segunda pra poder estar com a terceira... Haja tempo! Solto uma sonora gargalhada. A resposta me causa surpresa, vinda de um homem de vasta cultura, professor de Português, Inglês, autodidata em Matemática, com uma vida plena de saberes e amores. Um verdadeiro “sábio feliz”. Eu argumento que, se ele tivesse estudado mais, aprendido mais, hoje a resposta dele à minha pergunta provavelmente seria: “Gostaria de ter tido mais mulheres”. “É possível”, ele é obrigado a concordar. No fim, sempre teremos algo de que nos arrepender, algo que gostaríamos de ter feito melhor. Eu me despedi do meu avô com a alma ainda meio melancólica. Pensar nesses assuntos não me faz muito bem. De sábio não tenho quase nada, de triste tenho um pouco, às vezes. Já na rua, sozinho no frio da noite, eu cantarolo baixinho: “E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza. E deixemos de coisa, cuidemos da vida. Pois senão chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida”. [231]