LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Rafael Otávio Modolo
Bauru/SP
A noite do lobo
Uma noite cálida e banhada por uma imponente lua cheia são essências
brutas que formam um poderoso elixir ao penetrar na pele de todos os mortais.
Ninguém cede à inércia perante a escuridão que traz o ardor da alma, o ardor do
prazer, do clímax, do gozo. Erick era conhecido como “lobo da noite”; era o
devorador, nada escapava aos seus desejos. Líquido, em pó, carnal.
Seus deleites rompiam qualquer portal da sanidade, da possibilidade e da
legalidade. Legais, aliás, eram todos os poderes que ele impunha sobre a noite,
com garras e dentes vorazes, herdados do prestígio do pai, afamado juiz da
cidade. Erick era o príncipe da região, enquanto seus amigos eram os súditos de
um jovem lobo, que bebia, cheirava e ejaculava dinheiro. Mas, nunca se cede à
inércia numa noite cálida. Apesar do poderio promíscuo, o rapaz jamais recusaria
um desafio; ainda mais quando o desafio nascera da resposta negativa de uma
bela mulher.
Nova na cidade, Dora era helênica; era indescritível como atraía os homens
com a mesma que forma que os repelia, tamanha era a sua intimidadora beleza.
Muitos a desejam, poucos a cortejavam; mesmo delicada, Dora não permitia
gracejos ofensivos. Para conquistar sua atenção, um homem tinha que ter mais
do que desejo.
Erick só tinha desejo, muito desejo, e não se importou com a personalidade
de Dora: convidou-a para conhecer seu palácio, pois lá estariam a sós, como o
mancebo queria. Qual não foi a surpresa quando Dora aceitou o convite com um
sorriso encantador! Eram mais de três de madrugada quando desceram de um
Lamborghini cor de sangue para adentrar a mansão do lobo. Em passos rápidos,
entre beijos, amassos e goles de champanhe, o casal não demorou a chegar ao
aposento do anfitrião, preenchido por caríssimos móveis.
Já em pico de excitação, Erick atirou-se com Dora sobre a imensa cama...
“Agora, você vai saber por que me chamam de lobo!”, bradou como macho-alfa.
Em posição decúbito dorsal, Dora viu Erick saltar sobre ela, já despido. A moça
tão delicada exalou fúria, terror e trevas, rugiu como uma leoa e agarrou o
playboy com enormes garras negras; sua pele macia como pêssego cobrira-se
com pelos cinzas, longos e densos, enquanto seu corpo dobrara de tamanho,
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