Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 213

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Rafael Otávio Modolo Bauru/SP A noite do lobo Uma noite cálida e banhada por uma imponente lua cheia são essências brutas que formam um poderoso elixir ao penetrar na pele de todos os mortais. Ninguém cede à inércia perante a escuridão que traz o ardor da alma, o ardor do prazer, do clímax, do gozo. Erick era conhecido como “lobo da noite”; era o devorador, nada escapava aos seus desejos. Líquido, em pó, carnal. Seus deleites rompiam qualquer portal da sanidade, da possibilidade e da legalidade. Legais, aliás, eram todos os poderes que ele impunha sobre a noite, com garras e dentes vorazes, herdados do prestígio do pai, afamado juiz da cidade. Erick era o príncipe da região, enquanto seus amigos eram os súditos de um jovem lobo, que bebia, cheirava e ejaculava dinheiro. Mas, nunca se cede à inércia numa noite cálida. Apesar do poderio promíscuo, o rapaz jamais recusaria um desafio; ainda mais quando o desafio nascera da resposta negativa de uma bela mulher. Nova na cidade, Dora era helênica; era indescritível como atraía os homens com a mesma que forma que os repelia, tamanha era a sua intimidadora beleza. Muitos a desejam, poucos a cortejavam; mesmo delicada, Dora não permitia gracejos ofensivos. Para conquistar sua atenção, um homem tinha que ter mais do que desejo. Erick só tinha desejo, muito desejo, e não se importou com a personalidade de Dora: convidou-a para conhecer seu palácio, pois lá estariam a sós, como o mancebo queria. Qual não foi a surpresa quando Dora aceitou o convite com um sorriso encantador! Eram mais de três de madrugada quando desceram de um Lamborghini cor de sangue para adentrar a mansão do lobo. Em passos rápidos, entre beijos, amassos e goles de champanhe, o casal não demorou a chegar ao aposento do anfitrião, preenchido por caríssimos móveis. Já em pico de excitação, Erick atirou-se com Dora sobre a imensa cama... “Agora, você vai saber por que me chamam de lobo!”, bradou como macho-alfa. Em posição decúbito dorsal, Dora viu Erick saltar sobre ela, já despido. A moça tão delicada exalou fúria, terror e trevas, rugiu como uma leoa e agarrou o playboy com enormes garras negras; sua pele macia como pêssego cobrira-se com pelos cinzas, longos e densos, enquanto seu corpo dobrara de tamanho, [210]