LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
tornar-me minha mãe e dizer a mim mesma que necessito comer para que não
morra. Não era preciso tentar muito para livrar-se da ternura. Acho que jamais
amei ninguém e é por isso que o meu coração está apertadinho. Comprimido
entre um choro e outro, um grito e outro. Comer a maçã aos poucos para não
sentir o movimento doído da culpa, aquela maçã que nem sequer gosto tinha. O
homem deixou-a sozinha no banco de cimento, livre da sua companhia e ela não
precisava mais comer a maçã se não quisesse, podia inclusive jogá-la fora sem
embaraços. Talvez o homem não voltasse. Perto do meio-dia: o sol cada vez mais
forte. O vento ainda estremecendo a folhagem. As borboletas. Ninguém vem
mais. O homem ofereceu-lhe a maçã para que ela não morresse, agora a maçã
havia se tornado símbolo de vida. O que ele não sabia é que a menina desejava
morrer ali mesmo. Olhando aquele céu tão claro, recoberto de nuvens fininhas
que se moviam e se desfaziam vagarosamente. Contemplando um ponto
inexistente onde já não há uma ideia exata de bem ou mal, céu ou inferno. Tudo
transcende e ultrapassa. Era assim que queria morrer acreditando num céu azul
tão puro e de preferência que houvesse também um campo de girassóis onde
pudesse se deitar. O homem dava-se por satisfeito, o homem ia embora. Mas não
posso acabar simplesmente assim, com esse gosto entranhado na boca. A maçã
nem doce nem amarga. Eu tenho muito tempo ainda. As chaminés, as antenas,
as montanhas, as nuvens branquinhas e a voz da Adriana. Jogou as sementes no
chão para que elas nascessem. O enjoo tumultuou-lhe o cérebro: não pôde
continuar. O sol atravessando a pele e ninguém... porque na nossa terra não
brotam... não brotam...
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