LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Nara Sousa
Caucaia/CE
A Maçã
Porque a menina olhou ensimesmada para o homem: e o homem era seu
pai. O sol queimava a pele e a menina sentiu que estava completamente sozinha,
tão só que não podia contar nem consigo própria. Era como se caminhassem
num lindo e vasto jardim. Mas ela não sabia precisar, com certeza, onde
estavam. Ventava e o mato rasteiro, verdinho em folha, estremecia. A menina
sentia que de alguma forma era parte daquilo tudo. E gostava da sensação,
gostava do vento e da natureza, de estar ao ar livre. Desejo intenso de deitar-se
sobre o mato: transfundir-se, transformarem-se numa só coisa. A natureza é
Deus, alguém lhe dizia, alguém que não o pai. Também tenho medo do sol,
pensou. Depois meu corpo impregnado do cheiro de fósforo. Havia zigue-zagues
(libélulas) espalhados por todos os cantos. As asas transparentes eram
fascinantes e eles voavam alto. Mais alto do que ela podia alcançar. Apesar de
repugnantes eram belos, gostava deles. Porque havia cercas e casas para além
desse instante. Havia o sol terrível das dez horas. Então o homem ofereceu-lhe
sem jeito uma maçã, uma maçã cortada ao meio. Ela ficou olhando a maçã, que
não era reluzente nem tentadora, era feia, e olhando a vida e as nuvens se
esgarçando no céu. O homem não pronunciou uma palavra no curto espaço de
tempo em que estiveram juntos, mas deu a ela uma maçã para que não sentisse
fome. E ela teve raiva por aparentemente não ter mais motivos para odiar o
homem que na verdade era seu pai. A maçã tremia entre seus dedos,
mosquitinhos insistentes esvoaçavam em torno.
Com ou sem maçã não volto para casa, fez um esforço para não ter que
lembrar das pessoas que moravam lá. É verdade, eu nunca andei pela mão do
meu pai, nem pisei num jardim tão bonito. Eu sempre estive só. A maçã não era
prêmio nem pecado. Era alimento. Alguma espécie de consolo. Agora preciso
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