LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
segundos depois, não havia mais vida, a única movimentação era do celular do
paciente que seguia recebendo mensagens.
O médico e toda equipe passaram aos procedimentos seguintes. Dr. Ruco,
seguiu para o corredor procurando à jovem senhora que vira há pouco. Assim
que o viu a mulher apertando as mãos se aproximou.
— Meu marido doutor... eu o trouxe mais cedo – diz num sorriso de quem
não sabe aonde quer chegar. – provavelmente ele está bravo – ela se abana e
revira os olhos. – Ele tinha uma reunião hoje cedo, mas não tem passado muito
bem, por isso insisti... onde ele está? Posso vê-lo?
Adiantada a mulher chega a dar alguns passos seguindo pelo caminho que o
médico veio, mas para quando percebe que ele não a segue.
— Vamos logo doutor, também tenho coisas a fazer – novamente um abanar
bobo e uma risada sem sentido – meu marido é um homem ocupado ficará
nervoso se o prendermos aqui por muito tempo.
— Senhora – começa dr. Ruco –, mas não há necessidade de concluir. A
mulher, sem desviar os olhos do médico balbucia um não enquanto aperta a mão
na boca e no segundo seguinte desaba a chorar, foi necessário medicá-la.
Quando o plantão termina o médico vai para casa, no rosto o reflexo de
todos os atendimentos. Apaixonadamente beija a esposa, segue para o quintal e
abaixa-se quando uma garotinha corre e o abraça apertado.
— Você chegou bem a tempo papai... vamos soprar as velinhas e cortar o
bolo. Cadê meu presente?
Ele sorri e coça a cabeça. Foi um dia daqueles e mesmo com todas as
notificações de Cortana, ele simplesmente esqueceu. - E se eu lhe desse meu
tempo?
Por um instante a garotinha sorri e é aquele tipo de sorriso que faz um pai
perceber que o tempo está passando. Não para ela que ainda tem a vida toda,
mas para ele que como todos, depois de uma certa idade, lutam contra o tempo.
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