Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 174

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Antes mesmo de encostar no paciente o médico mais uma vez foi interrompido. — Realmente não precisa doutor... como disse antes já passou, estou pronto para outra. —Imagino que sim, mas as anotações da triagem dizem que... – o médico com olhos no prontuário confirma sua suspeita. – Bem... — Doutor, que bobagem... ainda não são 7h da manhã e o dia promete ser bem atarefado, não preciso estar aqui e o senhor pode seguir cuidando de outra pessoa. Minha esposa... bem, ela é assim mesmo. O médico o escuta atentamente, mas não parece convencido. Repousa o prontuário sobre a cama, quase sobre as pernas do paciente e o encara. — Tenho certeza que é autoridade nos negócios e na vida também sr. Silva – termina apontando na direção do corredor para a jovem senhora preocupada -, mas preciso lhe dizer que tenho motivos para crer que... O paciente sorri e até estica sua mão em direção ao médico que próximo é alcançado. – Entendo o que está tentando me dizer, preciso mesmo diminuir o ritmo, mas nesse momento coisas importantes estão acontecendo, negócios que vão refletir financeiramente quando a aposentadoria chegar, acho que pode me entender doutor... fique tranquilo que eu me responsabilizo. O paciente mais uma vez fixa os olhos no celular, usa o apoio no braço do médico e sem constrangimento vai se levantando e retirando alguns fios de monitoramento. Ainda sorri, abotoando a camisa, mas antes de apertar a gravata, encosta-se na cama e volta digitar. O celular do médico também dá sinal e automaticamente ele o apanha, na tela aparece o nome de três lojas com brinquedos para meninas de 5 anos, todas nas ruas próximas. Desliza a tela vendo as opções e tentando lembrar qual era a fantasia de super herói que ela vem falando tanto, “seria a de mulher maravilha?”. — Vocês tem wi-fi aqui, doutor? – a fala do paciente o desvia da atenção da imagem - A internet do meu celular, apesar de ser de ultravelocidade, está péssima hoje. Preciso muito mandar esse documento – diz apontando o aparelho. Dr. Ruco, que o olha fixamente percebe o suor na testa, seu celular retorna para o bolso com a mesma agilidade que havia saído. — Sr. Silva, o médico aqui sou eu e digo que... A frase não foi concluída, porque o paciente apoiar-se na cama enquanto seu celular escapa da mão e seus olhos parecem mais arregalados que deveriam. Imediatamente a campainha de emergência foi acionada, enfermeiros chegaram, um deles arrastava um carrinho com o desfibrilador, apressadamente todos seguiram as orientações do Dr. Ruco, que em minutos cumpriu o protocolo e também teve atitudes fora dele, porém foi tarde demais. Quatro minutos e oito [171]