LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Antes mesmo de encostar no paciente o médico mais uma vez foi
interrompido.
— Realmente não precisa doutor... como disse antes já passou, estou pronto
para outra.
—Imagino que sim, mas as anotações da triagem dizem que... – o médico
com olhos no prontuário confirma sua suspeita. – Bem...
— Doutor, que bobagem... ainda não são 7h da manhã e o dia promete ser
bem atarefado, não preciso estar aqui e o senhor pode seguir cuidando de outra
pessoa. Minha esposa... bem, ela é assim mesmo.
O médico o escuta atentamente, mas não parece convencido. Repousa o
prontuário sobre a cama, quase sobre as pernas do paciente e o encara.
— Tenho certeza que é autoridade nos negócios e na vida também sr. Silva –
termina apontando na direção do corredor para a jovem senhora preocupada -,
mas preciso lhe dizer que tenho motivos para crer que...
O paciente sorri e até estica sua mão em direção ao médico que próximo é
alcançado. – Entendo o que está tentando me dizer, preciso mesmo diminuir o
ritmo, mas nesse momento coisas importantes estão acontecendo, negócios que
vão refletir financeiramente quando a aposentadoria chegar, acho que pode me
entender doutor... fique tranquilo que eu me responsabilizo.
O paciente mais uma vez fixa os olhos no celular, usa o apoio no braço do
médico e sem constrangimento vai se levantando e retirando alguns fios de
monitoramento. Ainda sorri, abotoando a camisa, mas antes de apertar a
gravata, encosta-se na cama e volta digitar.
O celular do médico também dá sinal e automaticamente ele o apanha, na
tela aparece o nome de três lojas com brinquedos para meninas de 5 anos, todas
nas ruas próximas. Desliza a tela vendo as opções e tentando lembrar qual era a
fantasia de super herói que ela vem falando tanto, “seria a de mulher
maravilha?”.
— Vocês tem wi-fi aqui, doutor? – a fala do paciente o desvia da atenção da
imagem - A internet do meu celular, apesar de ser de ultravelocidade, está
péssima hoje. Preciso muito mandar esse documento – diz apontando o aparelho.
Dr. Ruco, que o olha fixamente percebe o suor na testa, seu celular retorna
para o bolso com a mesma agilidade que havia saído.
— Sr. Silva, o médico aqui sou eu e digo que...
A frase não foi concluída, porque o paciente apoiar-se na cama enquanto seu
celular escapa da mão e seus olhos parecem mais arregalados que deveriam.
Imediatamente a campainha de emergência foi acionada, enfermeiros
chegaram, um deles arrastava um carrinho com o desfibrilador, apressadamente
todos seguiram as orientações do Dr. Ruco, que em minutos cumpriu o protocolo
e também teve atitudes fora dele, porém foi tarde demais. Quatro minutos e oito
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