Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 129

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 musa. Vê-la passar constituiu-se em ritual dos mais importantes. Sua aparição de imediato ofuscava e apagava do cenário quaisquer transeuntes e veículos ali presentes no momento. Era como se apenas aquele conversível vermelho e sua condutora deslizassem suavemente por aquele espaço. Todas as demais imagens diluíam-se e formavam nuvens através das quais pareciam flutuar a motorista e seu carro. As mãos no volante, finalmente observadas, asseguravam continuidade à beleza da mulher. Finas, bem cuidadas, com unhas de comprimento perfeito (nem longas, nem curtas em demasia), ora pintadas de vermelho que combinava com o veículo, ora de rosa suave, acentuando a delicadeza da criatura. O jovem apreciava, particularmente, os cabelos, que pareciam cavalgar o vento e domá- lo, transformando-o em brisa leve, doce e tranquila. Recordou-se de certas publicidades de shampoos na TV, as quais sempre desprezara por seu caráter corriqueiro e enganoso, mas que adquiriam vida real na figura da linda motorista. A repetição diária da cena, com sua irresistível magia, chegou a inspirá-lo a redigir texto poético sobre a mulher em algum dos seus deveres de casa ou na sala de aula. Ensaiou, depois mudou de ideia, temendo elaborar algo piegas e passível das gozações dos demais colegas. Melhor guardar a inspiração para si unicamente. As vindas regulares do conversível despertavam a curiosidade sobre a vida da condutora. Qual seria sua profissão? Tratar-se-ia de jovem mãe que vinha buscar o(s) filho(s) em educandário próximo? Gostaria de futebol ou de artes? Seu fã incondicional imaginou mil histórias, de amor, de suspense, dramas e comédias em torno da personagem. Certa feita, sentiu que o olhar dela encontrara o seu (a propósito, a musa tinha olhos castanho-claros). Perturbou-se um pouco com isso, na dúvida se ela haveria detectado excesso de interesse nos olhos do estudante. Não queria assustá-la. Convenceu-se de que não fora o caso, porém, pois a motorista continuou a transitar por ali de modo natural, olhando ocasionalmente na direção do menino e permitindo o prolongamento daquele convívio de ares platônicos. A curiosidade em descobrir mais a respeito da mulher levou-o a idealizar que, um dia, ela pararia seu conversível e perguntaria se ele queria carona. Poderia ter início bela amizade. Chegou a aceitar o oferecimento imaginário enquanto entrava no seu ônibus de costume com um sorriso desvanecido, no mundo das nuvens. Essa idealização não durou muito, contudo. Preferiu a alternativa de simplesmente acompanhar a passagem da diva em seu conversível como privilégio de todo satisfatório. Mesmo quando viesse a mudar de colégio e deixar de tomar a condução naquele ponto, a beldade prosseguiria em sua imaginação como episódio inesquecível e marco romântico na vida de um adolescente. [126]