LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
musa. Vê-la passar constituiu-se em ritual dos mais importantes. Sua aparição
de imediato ofuscava e apagava do cenário quaisquer transeuntes e veículos ali
presentes no momento. Era como se apenas aquele conversível vermelho e sua
condutora deslizassem suavemente por aquele espaço. Todas as demais imagens
diluíam-se e formavam nuvens através das quais pareciam flutuar a motorista e
seu carro.
As mãos no volante, finalmente observadas, asseguravam continuidade à
beleza da mulher. Finas, bem cuidadas, com unhas de comprimento perfeito
(nem longas, nem curtas em demasia), ora pintadas de vermelho que combinava
com o veículo, ora de rosa suave, acentuando a delicadeza da criatura. O jovem
apreciava, particularmente, os cabelos, que pareciam cavalgar o vento e domá-
lo, transformando-o em brisa leve, doce e tranquila. Recordou-se de certas
publicidades de shampoos na TV, as quais sempre desprezara por seu caráter
corriqueiro e enganoso, mas que adquiriam vida real na figura da linda motorista.
A repetição diária da cena, com sua irresistível magia, chegou a inspirá-lo a
redigir texto poético sobre a mulher em algum dos seus deveres de casa ou na
sala de aula. Ensaiou, depois mudou de ideia, temendo elaborar algo piegas e
passível das gozações dos demais colegas. Melhor guardar a inspiração para si
unicamente.
As vindas regulares do conversível despertavam a curiosidade sobre a vida
da condutora. Qual seria sua profissão? Tratar-se-ia de jovem mãe que vinha
buscar o(s) filho(s) em educandário próximo? Gostaria de futebol ou de artes?
Seu fã incondicional imaginou mil histórias, de amor, de suspense, dramas e
comédias em torno da personagem.
Certa feita, sentiu que o olhar dela encontrara o seu (a propósito, a musa
tinha olhos castanho-claros). Perturbou-se um pouco com isso, na dúvida se ela
haveria detectado excesso de interesse nos olhos do estudante. Não queria
assustá-la. Convenceu-se de que não fora o caso, porém, pois a motorista
continuou a transitar por ali de modo natural, olhando ocasionalmente na direção
do menino e permitindo o prolongamento daquele convívio de ares platônicos.
A curiosidade em descobrir mais a respeito da mulher levou-o a idealizar
que, um dia, ela pararia seu conversível e perguntaria se ele queria carona.
Poderia ter início bela amizade. Chegou a aceitar o oferecimento imaginário
enquanto entrava no seu ônibus de costume com um sorriso desvanecido, no
mundo das nuvens. Essa idealização não durou muito, contudo. Preferiu a
alternativa de simplesmente acompanhar a passagem da diva em seu conversível
como privilégio de todo satisfatório. Mesmo quando viesse a mudar de colégio e
deixar de tomar a condução naquele ponto, a beldade prosseguiria em sua
imaginação como episódio inesquecível e marco romântico na vida de um
adolescente.
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