LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Jax
Brasília/DF
Mulher ao volante, perigo de caso apaixonante
O jovem estudante saía do colégio e caminhava até o ponto de ônibus
próximo, onde tomava a condução para casa. Uma rotina que se repetia quase
invariavelmente, de segunda a sexta, a não ser pelas raras ocasiões em que
outro colega o acompanhasse com destino ao mesmo bairro.
Na ampla maioria das vezes, contudo, ele se despedia dos companheiros de
classe e rumava, solitário, àquele ponto. Ali se punha a observar as pessoas ao
redor ou, nenhuma havendo a despertar sua curiosidade infanto-juvenil, passava
a refletir nos deveres escolares e, principalmente, nas festinhas do fim-de-
semana.
Sua rotina interrompeu-se naquele ano de 1967 quando observou, pela
primeira vez, o conversível vermelho que passava. Ao volante, a mulher de
cabelos castanho-dourados e vestido igualmente encarnado trouxe ao menino
alguma imagem já meio perdida na memória, apesar da pouca idade que ele
deveria ter (quatorze, quinze anos?). Cena de filme com uma linda estrela?
Propaganda de fábrica de bólidos ambicionados por amantes de automóveis?
Alguém que ele vira antes? Esforçou-se em vão para identificar, preferindo afinal
reter, tão-somente, o que acabara de presenciar.
A mulher ficou gravada no seu pensamento, durante todo o percurso do
ônibus e depois disso, de forma vigorosa, difícil de explicar. Pareceu-lhe bonita
desde logo, embora não pudesse afirmar se capaz de igualar-se às lindas artistas
de cinema então em voga. Havia algo nela, certamente, que o impactou, como
também costumava ocorrer com certas personagens dos romances de Machado
de Assis, Érico Veríssimo e outros bons autores. Terminados os exercícios de
álgebra e a tradução do breve texto de francês, dormiu com a suspeita de que a
motorista viria pilotar seus sonhos, mas enganou-se.
No dia seguinte, enquanto aguardava a condução, novamente a viu passar.
Dessa vez, o vestido era azul marinho, complementado por lenço amarelo no
pescoço, a esvoaçar juntamente com os cabelos, que pareciam ainda mais longos
e brilhantes ao sabor do vento. Confirmou a impressão inicial de tratar-se de
mulher bem bonita. Conjecturou qual seria a idade respectiva. Devia estar na
faixa dos vinte anos. Quando muito, uns trinta, se a aparente serenidade do
rosto significasse maior experiência de vida. De que cor eram os olhos? Ficou na
dúvida. Tampouco observara as mãos. Que falha! Mãos têm tanto significado:
podem maximizar a beleza feminina ou pô-la a perder. Na próxima oportunidade,
prometeu permanecer atento a esse pormenor.
A partir daí, o estudante cuidou de abreviar as despedidas na porta da escola
e até mesmo de dispensar eventuais “peladas” de futebol após a última aula.
Queria estar sempre a postos no ponto de ônibus, à espera da passagem de sua
[125]