LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
continuar assim. Além disso, sentir o ritmo daqueles dedos é tão bom, que não
quero que o seu dono tenha vergonha e pare de o fazer se se der conta de que
eu estou a ouvi-lo.
Levo, de novo, a chávena à boca. Eu conheço aquela canção... Não sei bem
qual é, mas eu conheço-a. Tenho vontade de me rir: que mundo é este onde o
mais bonito som não é ouvido por toda a gente? Apenas por mim, naquele banco
de café.
"Ooh, Ooah, Hum, Hum..."
Pouso a minha chávena. Este homem está a trautear... Ele está a
cantarolar... Olho num ápice e, agora sim, consigo ver aquele sujeito. Curvado
sobre o seu caderno, ele escreve... Acompanhado de uma chávena que é
diferente da minha, mais pequena... Uma chávena de café.
Quem é este indivíduo que tem a coragem de trautear num café? Fecho os
olhos, a ouvi-lo, ao de leve, e tenho tanta vontade de cantar com ele.
Quando volto a abrir os olhos, os dele encontram os meus.
— Ah – Digo surpreendida, mas ele não se perturba e continua a trautear
aquela canção. Ele maneia a cabeça e sorri, voltando a concentrar-se no caderno.
O que será que ele tanto escreve?
Não sei, não importa. O que importa é a pureza daquele som que agora me
preenche o corpo. Quero levantar-me e começar a dançar ao som da sua voz!
Agora sim, sorrio. Sorrio e sei que ele sabe que estou a sorrir. Consigo ver
perfeitamente o seu olhar furtivo na minha direção. Volto a fechar os meus olhos
e agora só consigo ver o azul límpido daquele homem que agora olha para mim.
Sentada naquele banco, levemente, abano o meu corpo ao som daquela voz
e bebo o meu chá. Tudo agora me parece maravilhoso. Estou noutro mundo, por
aqueles breves instantes estou noutro mundo, onde apenas existe aquele
homem, aquela canção e a vontade interminável do meu corpo interpretar aquela
melodia.
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