Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 111

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Helena Durães Amadora, Portugal A Trautear num Café O barulho é ensurdecedor. A esta hora da manhã, o café tem pouca gente, mas as vozes desesperadas que vêm da televisão preenchem o espaço. Talvez seja, precisamente, pelas poucas pessoas que ali estão, que tudo pareça ainda mais caótico. A cacofonia que daí advém não me deixa retirar os olhos daquilo que me mostram: mortes, prisões, perseguições, fome, desespero... Pelos minutos que ali levo, a tentar distrair-me da minha própria dor, estou a beber de tudo aquilo que se passa fora de mim, da minha realidade, do meu cubículo. Sem aviso prévio alguém muda de canal para algo completamente diferente, e, aí o barulho é outro. É também uma cacofonia, mas de uma outra origem: agora são três pessoas a gritar umas com as outras sobre um assunto qualquer supérfluo. Suspiro. As minhas mãos circundam a chávena de chá. Se aqui não consigo descansar a cabeça, ao menos que consiga aquecer as mãos. Está frio lá fora e, agora, tudo me parece impossível. O mundo parece-me impossível de compreender, parece- me impossível conseguir sobreviver no meio da soberba de outros que secam tudo à sua volta. Levo a chávena à boca e, pela primeira vez que aqui cheguei, sinto algo bom: o líquido quente aquece-me o corpo e saboreio aquele chá de camomila como se fosse o último. "Pum... Pum... Pum..." Olho de soslaio para ir ao encontro daquele som. É quase impercetível de tão baixo que é, mas ele existe e cedo percebo de quem é. O homem sentado ao meu lado naquele balcão bate com os dedos na mesa, como se estivesse a tocar uma canção. E sim, na realidade é uma canção... O movimento dos dedos é certeiro, único e ritmado. Como se aqueles dedos soubessem exatamente o que querem interpretar. Não consigo compreender como é que fui capaz de ouvir aqueles dedos, já que tudo continua a berrar... Talvez tenha sido por ser tão simples e único que o meu cérebro tenha conseguido descortinar aquele som. Ao de leve e sem conseguir parar, esboço um sorriso. Mas não me atrevo a fixar o meu olhar no homem. Não. Eu não o conheço de lado algum e num mundo onde não conhecemos ninguém e onde vivemos no anonimato é melhor [108]