Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 102

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Glauber Da Rocha Leite Derramado Quando Gregório Valentine dos Santos se dá conta, vê que o leite ferveu e derramou, sujando todo o fogão. Subitamente começa a chorar, não pelo um terço apenas do leite que derramou, ou menos que isso, mas por ter deixado derramá-lo, por ser assim agora quase todas as vezes que vai ferver o leite, e diz, ainda em lágrimas: – Oh, meu Deus, por que? Por que mais uma vez deixei o leite derramar? Sua mãe acorda com os gemidos do filho, vai até a cozinha, olhos arregalados, preocupada. – O que aconteceu, meu filho? Por que você está chorando tanto assim? – O leite, mãe. Dona Altina Valentine dos Santos começa a chorar pelo leite que derramou. Quanto mais vivemos, mais difícil é. A paz na terra é pequena, só quando morrermos! Um dia o leite não derrama, às vezes fica dias sem derramar, mas de repente, quando menos esperamos, ele transborda e suja o fogão. – Nossa! Como sujou desta vez! – ela diz, ainda em lágrimas. A vida é leite que derrama. O pai acorda. Osmar Valentine vê os dois chorando. Vê que choram pelo leite derramado. Ainda há leite no bule, o suficiente para os três fazerem tranquilamente o desjejun. Mas não consegue se conter e chora pelo leite derramado, pelo leite que derrama, pelo filho que deixa o leite derramar, pela esposa que chora porque na vida o leite derrama. Os três, enfim, se abraçaram no chão da cozinha e passam parte da manhã chorando... [99]