Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 87

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 como blocos de gelo navegando em águas turvas. Farpas imantadas, boiando em lago estranho. Como é difícil viver esse drama que é não saber como começar a escrever algo que possa nos trazer resultar numa boa alegria para nossa alma. E pensa: será que isso já deve ter acontecido com outros Poetas, ou pelo menos, assim como ele, que deseja começar descrever um sentimento, mas que não sabe por onde começar? E assim as memórias mais vívidas caíram na corrente das reminiscências. Então, mais que ágil, rabisca a página, riscando, jogando isca ao lago, pescando acasos da vida para pegar o sentido das coisas que estão dentro das palavras. Mas a palavra é um tormento quando queremos combiná-la com os sonhos. Ressabiou-se. Recolheu seus pensamentos de sobre a escrivaninha e foi para a varanda. Dormiu. Acordou. Àquela hora, caído tão cedo das alturas do sono, por mera tirania do hábito; coisa das Auroras Laboriosas. Mas agora, sentado no alpendre, tinha desistido. Desistido completamente, não atinava em nada reiniciar novas escritas; entregara seu destino à mão áspera do acaso. Entrou, acendeu o fogão. Sentou-se perto da janela, de onde podia ver o fogo. A chama. E ouviu o relógio do fogão apitar. Bebeu o café. Fumou. E fumando se preencheu de fumaça. Engasgou, engoliu o gosto amargo da nicotina e o vazio continuou. Permaneceu assim encostado na janela, pensando fora dela. A chuva da manhã. Lá longe o horizonte se acinzenta. A terra. As árvores e as montanhas estão verdes, e a neblina está em toda parte, como aquela que sobe do lago e alcança as montanhas como uma fumaça. Lá fora, os ventos de julho ainda estão úmidos e frios. A friagem que chega depois da chuva jorra numa torrente pela rua. Mais adiante a névoa rasteira e fechada, e depois a tormenta, num instante bem perto da janela já fica mais calma. Quando vislumbrou os Cisnes no lago a navegar e pensou: “Isso vai me atrasar um pouco, mas, puxa vida, penso só naqueles Cisnes, lá fora no lago, a tomar chuva! Ele ainda pensava numa poesia para ela. 84