Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 86

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 Instantes Antes dos Cisnes… Paulo Luís Ferreira São Bernardo do Campo/SP O espaço ficara paralisado, e o tempo recuara. O Ali e o Outrora tinham se transformado num Aqui e num Agora que deslizavam, dançavam envoltos em música. Antes, bem antes dos ventos Frementes e do Sol Vermelho e quente... Lá fora a chuva fina caia sobre o lago e chegava até sua janela. Ele gostava de pensar nas águas que vêm do céu como um líquido morno, assim como seu pensamento no estado Daquele Agora. Ele olhava absorto pelo vidro embaçado onde avistava na extremidade do jardim, à esquerda, um frondoso flamboiã. Era lá que gostava de pensar o mundo e os sonhos, mas agora chovia. Não podia lá estar. Só sabia que deveria estar em algum lugar, mas que não estou em lugar nenhum. Havia uma vasta e estranha tarde de sonho em seu olhar. E se perguntou por que as árvores morrem de pé. E pensou nela. De fato existia de corpo presente o corpo dela? Por instantes, a via bailar, doce e faceira em seus braços. Anelares desejos breves e futuros; e pensava: por que o tempo não para, para que agente não passe depressa? A chuva aparecia e desaparecia, como um véu escuro se abrindo e fechando. E entendeu naquele instante o porquê de os grandes navegadores deverem sua reputação às tormentas e aos temporais. Então se inclinou um pouco mais, até poder sentir na testa o vidro frio da janela, as correntes finas de ar e os pequenos chuviscos leve e ralos penetrarem pelas frestas da janela, e via sua respiração formar uma névoa. Assim como seu pensamento nela. Abriu as palmas da mão observando-lhes com melancolia. Ele acreditava que se podia ver a alma na própria respiração e explicava pra si, enquanto soprava as palmas das mãos, oferecendo a alma aos Deuses. Sua respiração desaparecia, enquanto olhava, até que só restou um pequenino suspiro, um arfar, e depois nada. Só pensava que a vida só tem duas verdades absolutas, as quais não foram proferidas pelo homem, mas pela lógica das coisas: que você veio e que você vai. O dia se foi e... A noite começava a chegar. A rua enegrece. A luz lustrosa do poste invade a rua, lúgubre como obelisco a iluminar pensamentos. Dentro de si estava se plantando uma lua; ele pensava em poetizar. Deu as costas para a janela. Devagar caminha rumo à escrivaninha que o esperava ansiosa. Procura seu banco de sentar. Às vezes ou quase sempre é um tormento fazer as palavras combinarem com os pensamentos, as emoções que se chocam, dentro do Si, e dos Consigos, 83