LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Cantiga de abril
Ernane Catroli
Rio de Janeiro/RJ
(…) Foi como se eu a visse pela casa varrendo e limpando,
ou na cozinha mexendo as panelas (…)
in: “Roupa no Coradouro”
(José J. Veiga)
Lua cheia, falhada. Claridade de outro mundo e o sibilo de um pássaro de
agouro. Que há que se perseverar nos detalhes. Nos recados. Que os olhos.
Olhos de ver. De sentir. E ainda nem era hora. E onde agora um descampado, um
deserto pra chorar. Chorar. E chorar. Esta cidadezinha de nada e o tamanho do
meu grito.
Daquela vez, antes de dobrar a esquina me virei. Ela acenava da entrada do
beco sob a luz amarela de um poste da avenida. Madrugada. Último horário do
ônibus.
Vou esperar as cartas! Que os filhos.... Os filhos são mesmo do mundo e
deste lado do peito. A sua voz que seguiu comigo.
Da última vez anoitecia quando deixávamos o consultório do médico.
Enquanto esperávamos um táxi, ela baixou a cabeça, brincou com um botão
frouxo da minha camisa; secou uma lágrima. De mãos dadas ficamos em
silêncio. O amor mais forte. E o
medo. O meu medo mil vezes aumentado. A
minha revolta. Algo muito grave nos aconteceu.
Depois. Depois aguardei o seu sinal à sombra da casa onde me deu à luz. E
nem demorou e, a aragem tépida nas plantas do jardim, volteios de folhas secas
aos meus pés, um silêncio prolongado que insistiu e o portão à minha direita que
rangeu e se manteve entreaberto para o que viceja em mistério e sob códigos.
Os nossos códigos.
Acho que lhe dei um piscar de olho. Acho. Mas tenho certeza que lhe fiz um
aceno.
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