LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Nada que não fosse um item de sobrevivência era considerado digno de ser
adquirido.
Quando a filha mais velha casou-se foram morar, ela e o marido, na propriedade
ao lado da casa da mãe. A filha trabalhava em seu próprio escritório e quando
cumpria todos os seus afazeres permitia-se lidar na manutenção de seu imenso
jardim, um de seus prazeres favoritos. Numa tarde ensolarada podava a fileira de
roseiras que plantara na divisa da propriedade. Justamente naquele dia a mãe
chegava em casa mais cedo do trabalho.
Quando viu o que a filha fazia pensou em como era inútil alguém desperdiçar
tempo e dinheiro com plantas. Então decidiu se achegar como quem faz o favor
de dar um sábio conselho. A jovem escolhia um galho que possuía um belo botão
vermelho para adornar sua mesa de jantar quando a mãe sibilou sua máxima “eu
não posso fazer isso, ficar em casa, eu tenho que trabalhar”. A filha, em silêncio,
cortou o galho e começou a raspar os espinhos, que caíam aos pés da mãe.
Tentar argumentar era inútil. A mãe não aprovava um trabalho que não fosse
duro e penoso. E manter qualquer espécie de hobby era, para ela, coisa de
desocupado. Nada lhe trazia mais alegria que poder afirmar categoricamente que
apenas conseguiu algo na vida porque “se matou de tanto trabalhar” e “nunca
gastou com trivialidades”. O trauma que o ex-marido lhe imputara se tornou seu
grande troféu.
Também gostava muito de comentar as escolhas alheias. “Fulano comprou uma
mochila caríssima para o filho. Na minha época usávamos sacos de açúcar!” Se
flagrasse a filha saindo de casa com uma blusa nova, já questionava do outro
lado da cerca “quanto custou”? E apavorava-se da quantia gasta, mesmo que
irrisória. Para manter o costume, complementava com outra de suas máximas
“eu não posso comprar isso, eu não tenho dinheiro”.
Com a idade a mulher sentia os efeitos do excesso desesperado de trabalho e da
ansiedade com o dinheiro. Mas carregava firmemente seu glorioso troféu. Um
dia, pediu à filha que lhe ajudasse a mover um grande e pesado armário. A
jovem pediu que ela aguardasse apenas cinco minutos. Quando lá chegou o
armário já estava movido e a mulher, sentada ao fundo da sala pondo gelo sobre
o braço afirmava sorrindo, “quase me matei, mas consegui”.
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