LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
O Grande Troféu
Micheli Biek
Vera Cruz/RS
A mulher se divorciara e tudo que restava eram duas filhas para criar. Embora
ainda fosse jovem, parecia mais velha do que realmente era por causa da
palidez, das imensas olheiras e da magreza, herança de seu fracassado
casamento. Quando da separação, o ex-marido prometera uma pensão
miserável. Nunca pagou. A rejeição e o medo do fracasso e da miséria abriram
uma profunda cratera no coração daquela mulher, que tentava, a sua maneira,
manter as coisas em ordem, especialmente as finanças.
Sempre que ia ao supermercado fazia-o acompanhada de uma das filhas. A
menina observava com olhar atento a mãe comparando os preços de cada item
antes de colocá-lo no carrinho de compras. Precisavam de quase uma tarde para
essa tarefa, pois nada passava despercebido pela mãe. Cada centavo a mais era
rigorosamente analisado e só compravam aquilo que era indispensável.
Em casa, na hora do almoço, eram as filhas que arrumavam a mesa. Os antigos
talheres de inox eram a herança mais valiosa deixada pelos avós maternos. Os
pratos decorados eram presente de casamento da mãe. Os copos eram de
plástico. A mãe servia à mesa. Arroz, feijão, salada de alface e três coxas de
frango, uma para cada integrante da família. Agradeciam pela comida e então
almoçavam em absoluto silêncio.
Naquele dia, porém, o hábito foi quebrado. A filha mais nova conversava
animadamente sobre acontecimentos da escola. A inocente atitude tornava o
clima mais leve, a mãe até sorria ouvindo os comentários da pequena. Tudo ia
bem, até que, quase sem querer, a menina deixou escapar que gostaria de ter
uma boneca de certo tipo, igual à de sua coleguinha.
Sobressaltada, a mãe largou os talheres, que tilintaram ameaçadoramente. Seu
olhar severo atingiu a pequena. Por que trazer tamanho sofrimento pedindo por
algo que sabia que a mãe não podia comprar? Além do que, não era um item de
primeira necessidade. Com lágrimas nos olhos ainda pediu à filha que jamais
repetisse tamanha tortura com sua mãe! Culpada, a menina baixou a cabeça e
assim todos esqueceram o assunto.
Com o passar dos anos a mãe, pouco a pouco, melhorava a sua condição
financeira. No entanto, continuava negando-se os menores prazeres e fazia
questão de comentar, para que as filhas seguissem seu exemplo. “Eu vi aquele
iogurte, eu tinha dois reais pra comprar. Mas aí pensei... Eu não preciso disso. E
o coloquei de volta na prateleira.” Prazeres eram para ela pecados de ganância.
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