LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
- Não seria bom comer sem engasgar? Falar como toda gente? Poder ir aos
bailes e ir falar com as moças sem medo de que elas riam de você?
Aí Lucas ficou mesmo muito zangado, pois era isto mesmo que acontecia
com ele, e o médico não tinha nada a ver com a vida dele, porém, continuara
quieto.
- Agora você vai ter convênio médico, rapaz.
Lucas não entendia o que o convenio médico da empresa tinha a ver com a
garganta dele, deu de ombros, pegou seu ASO apto e retirou-se. Tivera medo de
ser reprovado!
Agora, três meses depois, este novo chamado...
A secretária do ambulatório já o esperava:
- Oi, Lucas, o doutor está esperando você, pode entrar.
E o médico lhe comunicou, à queima roupa, no jeito apressado dos
médicos:
- Rapaz, marquei uma consulta pra você dia 15 do mês que vem. Eu
consegui uma consulta para você em Bauru, em um hospital de cirurgia plástica
especializado em casos como o seu. Não é ótimo?
- Olha, doutor, eu estou bem do jeito que eu sou, não quero operar, não,
comecei agora, vou perder meu emprego.
O doutor riu.
- Pois foi por isso que eu só o chamei agora, pois agora você tem
estabilidade e pode usar o convênio para operar! O seu chefe já está sabendo,
aliás, e já sabe que vai ficar sem você por umas semanas.
- Semanas? Em Bauru? Eu nem sei onde fica isso...
Lucas sentiu-se desconfortável. Aos dezenove anos, era um caipirão, pois
passara quase toda sua vida entre gente simples, a maioria analfabeta, e saíra da
casa da família depois do concurso que o colocara neste emprego. Ainda estava
bem desconfortável na cidade grande, onde todos pareciam tão mais espertos
que ele. Mas o doutor parecia ter resposta para tudo:
- Claro que não sabe! E por isso nós vamos ajudar você com todos estes
detalhes. Você vai agora conversar com a assistente social da empresa, a Lúcia, e
ela vai explicar tudo a você, marcar as consultas, os exames, agendar a
condução, porque você não vai sozinho, seria muito complicado. E a empresa
quer ter certeza de que você foi bem tratado e não se perdeu pelo caminho.
Hehehe... Vai ser ótimo poder comer direito e falar como toda gente, não?
Lucas, que volta e meia se engasgava, e comia cautelosamente, sem falar
na vergonha que sentia em se aproximar das moças, suspirou. O médico se
levantara e o encaminhava para a porta:
- A Lúcia espera você na sala dela, ali adiante, vou mostrar onde é.
Toda esta atenção estava deixando o rapaz inibido. Ele não estava
habituado a tanta cordialidade. Três salas adiante, uma senhora de óculos, forte,
de aparência decidida, falou-lhe longamente sobre várias coisas que o deixaram
tonto. O que ele entendeu é que, só Deus sabe porquê, a empresa decidira que
ele seria operado o mais rápido possível, e auxiliado em tudo o que fosse preciso.
Lucas começou a acreditar que tinha um anjo da guarda, afinal. E começou
a sonhar com a cura.
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