LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Nova voz, nova vida
Sonia Regina Rocha Rodrigues
Santos/SP
Lucas chegou ao trabalho ressabiado porque neste dia terminava seu
período de experiência. Passara no concurso dos Correios, e, pela primeira vez,
apesar de ser quem era, conseguia trabalhar.
Seu chefe parecia contente com ele, e os colegas o tratavam bem, embora
o chamassem de fanho, o que parecia ser inevitável, com a voz que ele tinha! O
melhor de seu emprego é que não precisava falar com ninguém, simplesmente
saía a entregar as cartas, com a sacolinha nas costas, e, nas portarias dos
prédios, mostrava os recibos e esperava que os porteiros os assinassem e sorria
em resposta. Raramente precisava falar, o que era um alívio!
Lucas sabia que, em empresas públicas, onde se ingressava por concurso,
após o primeiro trimestre, havia estabilidade. O que significava sustento
garantido pelo resto da vida. Ele recebia nos Correios algumas mordomias: um
bom vale alimentação, uma excelente cesta básica, convênio médico e
odontológico.
A primeira parte da manhã passou rápida. Os colegas admitidos pelo
mesmo concurso
estavam já festejando a estabilidade, certos de que
permaneceriam ali.
Então, no intervalo do lanche matinal, o chefe o chamou e entregou-lhe
uma intimação: ele estava sendo chamado ao ambulatório médico.
- Você está dispensado por hoje, para ir falar com o médico.
Lucas sentiu-se gelar por dentro. O chefe estava sorrindo, mas isto não
queria dizer nada, ele poderia estar completamente indiferente à demissão de
Lucas.
- Vá logo, rapaz, o que está esperando? Vá, vá...
Lucas não gostara do médico, desde a primeira vez que o encontrara, em
seu exame admissional. O sujeito o fizera abrir a boca e comentara:
- Ah, é por isso então que você fala assim... nunca fez cirurgia pra corrigir
isso?
Lucas negara, balançando a cabeça.
- Já nasceu assim, não é? Porque não foi operado quando era bebê?
- Eu nasci em casa, doutor. Sou lá do vale do Jequitinhonha, não tem
médico, não...depois, eu fui vivendo assim e me acostumei.
O médico fizera uma careta.
- Isso que você tem é um lábio leporino incompleto, nunca ouviu falar de
lábio leporino? Nunca viu outras pessoas com marca de cirurgia nos lábios?
Lucas não respondera, pois não compreendera o comentário sobre os
lábios diferentes. E o médico continuara:
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