LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
Ventos da Cultura
Amélia Luz
Pirapetinga/MG
Do seio do povo nasci, trazendo comigo todas as colheitas feitas pelas
outras gerações que me antecederam. Meus velhos ancestrais me passaram
desde a canção de ninar até o falar, o gesticular, o proceder pela correnteza da
cultura. Braços fartos, leques abertos, mãos que distribuíram um arco-íris
colorido de influências culturais em abundância. Da ama negra herdei a
mansidão, o pouso do olhar brando, a ingenuidade. Com ela brinquei de roda,
cabra-cega, pique de esconder. Aprendi longas histórias que atravessaram o
oceano em navios negreiros cheios de amargura e saudade. Conheci os sabores
de quitutes deliciosos como também a utilizar palavras que saiam dos seus lábios
no africano trazido na alama. Colocou-me um “patuá” para me livrar de “mau
oiado” rezava com galho de arruda para me curar de “ispinhela caída” e me fazia
cafuné para abrandar minhas lágrimas de criança.
Dormito na rede nas horas da tarde ouvindo o cacarejar das galinhas
d’angola. Ao meu redor as influências indígenas do povo silvícola maculado pela
colonização bruta. Subo nas árvores, desço nos igarapés, ouço o canto da Iára,
do Boitatá, do Boto cor de Rosa nas matas onde o Saci Pererê assobia
anunciando as suas travessuras. Com ele vem chegando a Mula sem Cabeça, O
Curupira, a Cuca para com seus feitiços me encantarem na minha ingenuidade de
menina.
Levo comigo o olhar altivo dos lusos chegando, dominando, injetando aqui
uma cultura ibérica de muitas e diferentes nuances. Saboreio receitas da terra
portuguesa, além das manifestações religiosas cunhadas pela missão
evangelizadora trazidas com a Campanha de Jesus na Contra Reforma.
Sou uma colcha de retalhos!!! Em faces múltiplos e desdobráveis como
assim me fizeram no barro virgem com mãos indígenas, africanas e portuguesas
sem falar no envernizamento que me foi dado pela mão do imigrante. Nesse
caldeirão de enlaçamento falo latim, português e neolatinas, dialetos africanos
diversos e o tupi-guarani que teima poderoso em não sair da minha boca.
Inventariando tudo isso no santuário arqueológico do balanço da minha vida
deito-me e descanso no berço cultural da minha latinidade viajante que sou
trazendo na “cacunda” (?) um mundo de mistérios herdados no correr dos
séculos. E esta chama não pode se apagar. Ela continuará a iluminar a VIDA no
correr manso do tempo que traiçoeiro nos arrasta.
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