Revista LiteraLivre 13ª edição | Seite 187

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Ventos da Cultura Amélia Luz Pirapetinga/MG Do seio do povo nasci, trazendo comigo todas as colheitas feitas pelas outras gerações que me antecederam. Meus velhos ancestrais me passaram desde a canção de ninar até o falar, o gesticular, o proceder pela correnteza da cultura. Braços fartos, leques abertos, mãos que distribuíram um arco-íris colorido de influências culturais em abundância. Da ama negra herdei a mansidão, o pouso do olhar brando, a ingenuidade. Com ela brinquei de roda, cabra-cega, pique de esconder. Aprendi longas histórias que atravessaram o oceano em navios negreiros cheios de amargura e saudade. Conheci os sabores de quitutes deliciosos como também a utilizar palavras que saiam dos seus lábios no africano trazido na alama. Colocou-me um “patuá” para me livrar de “mau oiado” rezava com galho de arruda para me curar de “ispinhela caída” e me fazia cafuné para abrandar minhas lágrimas de criança. Dormito na rede nas horas da tarde ouvindo o cacarejar das galinhas d’angola. Ao meu redor as influências indígenas do povo silvícola maculado pela colonização bruta. Subo nas árvores, desço nos igarapés, ouço o canto da Iára, do Boitatá, do Boto cor de Rosa nas matas onde o Saci Pererê assobia anunciando as suas travessuras. Com ele vem chegando a Mula sem Cabeça, O Curupira, a Cuca para com seus feitiços me encantarem na minha ingenuidade de menina. Levo comigo o olhar altivo dos lusos chegando, dominando, injetando aqui uma cultura ibérica de muitas e diferentes nuances. Saboreio receitas da terra portuguesa, além das manifestações religiosas cunhadas pela missão evangelizadora trazidas com a Campanha de Jesus na Contra Reforma. Sou uma colcha de retalhos!!! Em faces múltiplos e desdobráveis como assim me fizeram no barro virgem com mãos indígenas, africanas e portuguesas sem falar no envernizamento que me foi dado pela mão do imigrante. Nesse caldeirão de enlaçamento falo latim, português e neolatinas, dialetos africanos diversos e o tupi-guarani que teima poderoso em não sair da minha boca. Inventariando tudo isso no santuário arqueológico do balanço da minha vida deito-me e descanso no berço cultural da minha latinidade viajante que sou trazendo na “cacunda” (?) um mundo de mistérios herdados no correr dos séculos. E esta chama não pode se apagar. Ela continuará a iluminar a VIDA no correr manso do tempo que traiçoeiro nos arrasta. 183