Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 184

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Uma missão civilizatória Bruno Antonio Picoli Chapecó/SC É um trabalho difícil, sabe? Tem dias que cansa, que só quero saber de chegar em casa e cair na cama. O serviço também, só faz crescer, o serviço e o cansaço. Cansa, sabe? Tem que trabalhar muito, às vezes fico horas extras no laboratório, sentado, inclinado sobre aqueles peças de porcelana, medindo, lixando, polindo, colando, secando, medindo, lixando, polindo, cansa! Você não imagina! Cada dente exige uma perícia! Só falar disso me cansa! Pra você entender fico apenas com os caninos, acho que é o bastante. Os malditos estão lá testemunhando o passado de símio, cada um deles provocando-me com sua audácia em se manter ligado a essa natureza de maldito selvagem. Pontiagudos, afiados, diferentes entre si e em cada boca, malditos! É aí que entra a minha arte. Mesmo cansado, muito cansado, dedico aos caninos atenção especial, lixo, lixo, pulo, pulo, civilizo o símio. Ao fim do dia, a sensação da missão cumprida e, sobre a bancada do laboratório, dentes que em diferentes bocas produzem sorrisos iguais. Você acha isso pouco? Não se engane! O trabalho só faz crescer! Porque além disso cada boca insiste em ser uma boca diferente da anterior. O formato, a curvatura do palato, o tamanho da língua, o número de dentes para cada boca banguela, e não só isso! Cada boca, malditas bocas, tem lábios mais ou menos carnudos, mais ou menos longos, com covinhas, sem covinhas, bochechas gordas ou magras, tonalidades e até o maldito nariz! Acredita que até a distância entre os olhos pode atrapalhar meu êxito? É difícil chegar ao sorriso perfeito, igual ao anterior e ao anterior deste. É um trabalho duro! Sabe? Artesanal! Moldar boca por boca, para no fim ser uma boca só, igual a anterior e à anterior. E ainda tem mais! Mais malditas que as bocas, são esses novos dentistas. Acreditam que cada dente tem na sua diferença sua beleza! Como permitem isso? Todo o trabalho de gerações questionado por modismos. Não respeitam tradição nenhuma e, às 180