LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
TODOS eram OBRIGADOS a fazê-lo. Que tormento! Já não bastavam as noites
terrivelmente longas.
Como de costume não era permitido fazer outra coisa qualquer senão deitar-se.
Carini também não apreciava as sestas, então, convencemos Cecília a nos deixar
dormir sobre o imenso sofá de couro da sala. Ali podíamos ao menos observar a
paisagem pelas grandes janelas laterais e sussurrar alguma conversa.
Na primeira tarde que ali passamos percebemos que não estávamos sozinhas.
Ouvimos um ruído vindo debaixo de uma das poltronas de minha avó. Inertes,
esperamos. Logo uma pequena movimentação surgiu. Eram dois camundongos
que aproveitavam o silêncio da sesta para perambular por aí.
Procuravam avidamente por algum resto comestível. Qualquer ruído os fazia
parar instantaneamente. Um deles ainda mantinha a patinha no ar, congelado
como uma estátua. Com o cessar do ruído por alguns instantes, voltavam à vida,
farejando sorrateiramente.
Era o brinquedo perfeito para duas crianças entediadas. Esperávamos Cecília
iniciar seu ronco diário, para então, silenciosamente, roubar um pequenino
pedaço de pão na cozinha, prendê-lo a um barbante e deixá-lo na frente da
poltrona. Os camundongos se aproximavam cautelosos, pareciam saber que se
tratava de uma armadilha.
Ao puxar o barbante, desapareciam rápidos como um raio. Alguns segundos em
silêncio e retornavam farejando tudo o que vinha pela frente. Em seu esconderijo
havia um buraquinho que os levava para debaixo do assoalho.
Era impossível capturá-los.
Então começamos a deixar os farelos de pão soltos na frente da poltrona. Os
camundongos se aproximavam e esperavam. Ao ver que não havia perigo,
agarravam um farelinho e partiam rapidamente, retornando segundos depois
para ver se havia mais. Por quase dois anos alimentamos aqueles camundongos.
Eles foram a companhia que tornou suportáveis as sestas de cada dia.
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