LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
Sesta com Camundongos
Micheli Biek
Vera Cruz/RS
Quando meus pais se divorciaram passamos a morar com meus avós maternos.
Eles viviam em uma antiga casa de alvenaria com grandes janelas arredondadas
e assoalho de madeira que rugia de acordo com as passadas. Lá tinha um antigo
relógio cuco que dava as suas batidas a cada meia hora.
Todo sábado minha avó, Cecília, dava corda no relógio. Quem nos visitava
afirmava jamais se acostumar com o barulho, mas eu não tinha problemas com
ele. Durante o dia, nem ouvia mais as batidas. Á noite, deitada em minha cama
no quarto, acompanhava o barulhinho do ponteiro, marcando a passagem do
tempo.
Nessa época vivi um período de terrível insônia. Afirmo com absoluta certeza que
aqueles que têm o benefício de deitar-se e adormecer são imensamente
abençoados e privilegiados. Eu simplesmente não dormia. Quase nunca. Percorri
em claro uma maratona de quase cinco dias e cinco noites sem pregar o olho.
Na ânsia de me ver adormecer, a mãe entupia-me de suco de maracujá. Nada!
Hoje sei que o suco era cientificamente inútil. Como não dormia ficava em um
estado de ansiedade tão crítico que sofria taquicardia. Sabia que precisava
dormir, o desejava desesperadamente, mas o sono não vinha. Então eu chorava.
Bastante.
Não era permitido assistir TV, qualquer ruído poderia acordar os velhos. Não era
permitido sair para o pátio e perambular lá fora, os cães poderiam latir e isso
acordaria alguém. Não era permitido nem manter uma luz acesa durante a
madrugada para ler! Era somente escuridão e o barulho do relógio ecoando no
silêncio da noite.
Minha mãe ajudava a cuidar da propriedade, mas decidiu trabalhar fora por
algum tempo para contribuir financeiramente na casa. Eu e minha irmã, Carini,
ficamos aos cuidados de Cecília. Todo santo dia ela mantinha o hábito da sesta.
158