LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
Rio das memórias
Alberto Arecchi
Pavia - Itália
Você se lembra daquele mês de maio, um dia de sol, na beira do rio? A menina
fora buscar água, como fazia todos os dias. Ela não entendia o idioma de você e
olhava com surpresa. Tinha apenas treze anos, era quase uma criança, e havia
atraído os desejos de um jovem guerreiro, sedento de conquistas. O nome do
rio? Você já não se lembra. Era o Indus, o Nilo, o Paraná, o Congo, o rio Amarelo,
o Mekong, o Drina ou o Amazonas?
Você precisava de viver em um mundo de aventura e liberdade total... mas
preferia pensar que os outros estivessem a precisar de você. Outros que não
tinham chamado você, outros que enviavam sua filha para buscar água no rio,
porque em casa eles não tinham as torneiras ligadas, nem a rede eléctrica, ou
gás, ou a TV. O Paraná, o Congo e o Limpopo juntos obtiveram sua vingança,
você não teria sido capaz de dizer se pertencia mais a eles ou ao Tejo, ao Minho,
ao rio da sua terra.
Vivendo lá, você era como uma daquelas ondas que chegam às margens dos
oceanos: entre muitas outras, um dia, você vai encontrar novamente uma que já
conhece. As florestas, as savanas, os desertos são como mares, as trilhas vão
através deles como rotas e as pessoas vivem nos portos. Você voltou, cheio de
anos e de experiência, e você percebeu que esta sua sociedade, grande
internacionalista e solidária, na verdade era nada mais que uma aldeia pequena,
onde todas as nuances da linguagem ou do sorriso te identificam. Seu sorriso era
diferente, você agora olhava as pessoas nos olhos e não as avaliava pelo
esplendor da ponta de seus sapatos.
Inexplicavelmente, porém, em sua cidade parecia como se nunca tivesse
existido, ou que tinha estado ausente durante séculos, como um Ulisses
moderno.
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