Revista Elas nov. 2019 | Page 61

Nise -se de acordo com aspectos políticos, econô- micos, educacionais e de saúde. A colocação demonstra que o país vive a maior desigual- dade entre gêneros desde 2011, e registra uma caminhada na contramão do que representaria um progresso em direção à paridade. Segun- do o relatório, os motivos desse abismo são, principalmente, disparidades relativas à parti- cipação e oportunidades econômicas. Em tempos cinzas, autocuidado para nós, mulheres, na linha de frente da socieda- de ou em nossas próprias vidas, é ato políti- co e estratégia de sobrevivência. Para fazer revolução e ainda poder dançar: olhar para dentro, aprender a se colocar como priorida- de, tocar o violino em nossas vidas, mesmo que o barco esteja a afundar. Autocuidado é resistência e ato de amor próprio. Na revolução, é preciso poder dançar A caminhada não é de hoje, várias ou- tras de nós abriram caminho para a revolução. Resistir como as pioneiras já resistiram, mas, olhar e cuidar de si antes de cuidar do outro, essa é a dança das cadeiras. “Se eu não puder dançar, não é minha revolução”. A frase da anarquista e ativista li- tuana, Emma Goldman, que viveu nos séculos XIX e XX, traz a essência do bem-viver para militância. Precisamos fazer revolução sem nos punir, sem sermos duras conosco em mo- mentos em que o corpo, a mente e o coração precisam de descanso. Esse cuidado no front passa por entendermos que nem sempre con- seguimos ser coerentes, nem sempre há força. Nesses momentos, buscar uma rede de apoio, recuperar o fôlego, se encontrar e voltar para a dança da revolução. Iara sabe a importância da luta por di- reitos, e que nem sempre conseguimos estar à frente da militância. “Sabe a cena quando o Titanic está afundando e tem um cara tocando violino? Em alguns momentos a gente preci- sa se permitir tocar violino enquanto o barco está afundando, porque, as vezes, é necessá- rio a gente não ficar pensando só nisso. Tenho tentado ter momentos de respiro para ter mais força quando vou me engajar nas lutas”, rela- ta a terapeuta ocupacional. Imagem: Nayara Campos 6 1