Revista Elas nov. 2019 | Page 128

jornalismo em Bauru, ela é meu orgulho e sei vai ser uma ótima profissional”, diz. Os movimentos dela no mundo eu acompanho de perto. Sei da trajetória da mu- lher que me deu a vida e me criou, é a história de várias Marias e tantas outras mulheres no Brasil. Quando se nasce e cresce sem oportu- nidades, como minha mãe, a nossa existência e sobrevivência é diária, com cada vez menos direitos e suada, mas também revolucionária. Beatrys: empreendedora de Bauru Nascida da união entre Elke Aparecida Mariano e Fabiano Aparecido Frederico, Be- atrys Fernanda (22) é a cara do empreendedo- rismo no Brasil. Ela faz parte das estatísticas que mostram que os jovens são os que mais empreendem no país, e também confirma o índice de que aqui, a maioria dos empreende- dores não possuem ensino médio completo. Para além dos números, a história de Beatrys, assim como a de Sueli e tantas ou- tras mulheres periféricas, revela a luta para sobreviver a um sistema. “O Saúde Embalada é a única renda mensal que tenho, é muito im- portante porque é de onde tiro meu sustento. É uma coisa que eu gosto e ainda consigo ti- rar um dinheirinho”, comenta. O Saúde Embalada é um projeto de empreendedorismo da Unesp de Bauru que tem como pilares a alimentação saudável, o empoderamento feminino e a transformação social. Beatrys participa do programa junto com mais uma moradora do Jardim Niceia. A ação é desenvolvida pela Enactus, projeto de extensão da Unesp de Bauru. “Os alunos que conduzem o projeto são muito esforçados e nos ajudam bastante! Estou desde o início e vi nossa evolução com os produtos”, afirma a jovem bauruense. 1 28 Beatrys e integrante do Saúde Embalada preparando as saladas Brasis Pesquisa divulgada em outubro de 2019 pelo IBGE revela que em 2018, no Brasil, o rendimento do grupo 1% mais ricos cresceu 8,4%, enquanto o dos 5% mais pobres caiu 3,2%. Imersos em uma capenga retomada econômica e frente ao crescente número de desempregos, histórias como a de Sueli e Be- atrys são reflexos de uma sociedade desigual. A vida na periferia é muito mais do que se vê nos noticiários. Para além da pobreza espetacularizada para gerar audiência, a pe- riferia é criativa e, muitas vezes, solidária. Olhar com cuidado o empreendedorismo pe- riférico: não condenar como somente prática de exploração e precariedade, ou tratar com romantização e meritocracia. É preciso en- xergar o pano de fundo social e econômico no qual as empreendedoras e os empreendedores de base estão inseridos. Sueli e Beatrys movimentam suas vi- das na periferia, trucam o sistema e buscam uma realidade além das que as foi imposta desde o nascimento.