Revista Cenariun - Toledo Fibra MAR. 2019 | Página 10
o prazer de ler
José Franco
Formação em CiÊncias Sociais e
Adm. Hoteleira. (Escreveu para a
Folha de São Paulo, Revista Eat
Magazine, Revista What’ e Revista
Metrópólis) - vfbot@uol.com.br
As visitas que
hoje estamos
ANTONIO GERALDO FIGUEIREDO FERREIRA
Capa: Iluminuras
N
ão, o título do livro não foi digitado
errado. Nem o autor se enganou ao
intitular sua obra. O nome do livro é
propositalmente estranho e, segundo o próprio
autor, “estar em visita” é, de certa forma, não
estar fixamente em lugar e tempo algum. Esse
desconforto de uma situação provisória, precária,
é também existencial, pois nossa passagem
pela vida pode ser vista da mesma forma. Um
estar hoje em visita a vida. Curta, passageira e
imprevisível. Também o autor tem uma trajetória
diferente e pouco comum. Nascido em 1965, em
Mococa, interior de São Paulo, formou-se em
Letras na Universidade de São Paulo e iniciou a
pós-graduação, em 1994 abandonou a academia
e mudou-se para Arceburgo, uma cidade no
interior de Minas Gerais. Simplesmente, largou a
promissora vida acadêmica na capital e abriu um
pequeno comércio no interior de Minas. Publicou
um livro de poemas Peixes e Míngua, alguns textos
em jornais e, em 2012, o seu primeiro romance
“as visitas que hoje estamos”, que levou dez anos
para escrever. O livro de mais de 400 páginas, de
título e autor desconhecido, causou um grande
impacto entre os mestres de literatura e críticos
literários. Referências a Machado de Assis e
Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Hilda Hilst,
entre outros realmente chamaram a atenção
do mundo literário para o livro. Fiquei muito
curioso e tentei comprá-lo em inúmeras livrarias
sem sucesso. Impossível encontrar. Só consegui
encontrá-lo quando recorri ao portal que já
comentei aqui algumas vezes, “Estante Virtual”. A
leitura é realmente muito surpreendente. Difícil
até para os críticos classificar o estilo. Mas, enfim,
é um romance. Um romance que não tem enredo
e mistura tudo: prosa, poesia, teatro, ficção, e
documentário. É rural e é urbano, tem o interior
e o grande centro como narrativa e cenário. Sua
inspiração, segundo Antônio Geraldo, veio depois
de um almoço com a cunhada em um hotel
fazenda, em que ela reclamava dos filhos que, ao
crescer, iam tomando todo o espaço da casa. Ele
comentou que isso era a vida e que ao envelhecer
se vai perdendo lentamente o espaço vital. Ela
seria arrancada aos poucos da sala, da cozinha. Ia
ficar com o quarto e depois, nem isso, somente
a gaveta direita da cômoda, onde ela guardaria
umas coisinhas e esconderia a chave no bolso da
camisola. A cunhada não gostou nada da história
e ficou assustada ao invés de rir. Depois ele
percebeu que poderia contar essa história de como
as pessoas ficam aprisionadas na própria casa, na
própria história e, em si mesmo. A multiplicidade
de vozes, e diversidade de gêneros é consequência
da necessidade de dar voz aos inúmeros
personagens e seus dramas. Pode parecer um
pouco confuso um romance sem enredo, sem uma
história definida. Sem protagonista, sem heróis
e sem bandidos, em que todos os personagens
são tão reais que é difícil defini-los. Mas não é.
Antônio Geraldo é tão inovador e escreve com
tanta elegância e inteligência que é um prazer
enorme cada página e cada surpresa. Vale muito a
pena conhecer esse universo tão curioso e real que
vivemos e, que muitas vezes nem percebemos.
“As visitas que hoje estamos”, é uma excelente
oportunidade de mergulhar na essência daquilo
que somos e preferimos não ver. A coragem de lê-
lo é recompensadora. Força.