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Esta deriva denota ‘ risco ’, parece não existir nada a perder , porque a situação anterior é sempre precária ou , quando não o é , acaba . Em algumas situações , a pandemia ( Covid ) teve essa responsabilidade de ‘ matar ’ processos de trabalho . Nas deambulações de situações precárias , escolhem , entre todas , a melhor , da pior , das situações . Referem que as condições de trabalho são difíceis , caracterizadas por um elevado número de horas diárias de trabalho ( 8h a 10h ), normalmente mal pagas , justificadas sobretudo nas necessidades , e nos ritmos de duração , de quem contrata ( quase sempre mediadores ) ou de quem precisa de mão de obra sazonal .
// « Em Beja fui empregado de um patrão indiano – trabalhei nos olivais- as condições eram muito más , senti-me um animal de carga ( imita os sons de um burro ) … Tive um contrato precário sem pagamento de impostos / descontos .» ( E1 )
Num dos casos de um imigrante , a situação que o trouxe para Portugal teve por base um contrato legal de trabalho , mas , por ter sido a prazo , apenas permitiu estabilidade laboral enquanto durou . Voltar a ter oportunidade de trabalhar nem sempre se vislumbra fácil e possível .
// « Trabalhei na agricultura em Odemira – as condições de trabalho eram boas , trabalhava-se muito nas estufas . Não tinha estadia integrada no contrato , era por minha conta . Vim para Portugal com uma promessa de trabalho através de uma companhia , para um único patrão , durante uma campanha agrícola . Tive contrato legal para trabalhar , mas acabou .» ( E3 )
Todos os imigrantes , no momento da entrevista , se encontravam sem trabalho e em situação irregular , em concreto , sem passaporte e sem cartão de identidade . Todos ‘ estranhamente ’, disseram ter perdido o seu passaporte . Uns referem que essa situação aconteceu num determinado momento do seu percurso de mobilidade antes de chegarem a Portugal , outros , dizem-se vítimas de roubo por não terem casa , nem abrigo de segurança , para deixar os seus pertences . Precisam para regularizar a situação de ter atividade fiscal contributiva em Portugal . Nenhum dos entrevistados conseguiu , até ao momento , dado o contexto precário , regularizar a sua situação em Portugal . Como um dos entrevistados referiu ,
// « sem casa , sem dinheiro e sem trabalho . Perdi o passaporte em Paris , há dois anos . Pedi um novo passaporte em Portugal , mas não tenho dinheiro para pagar impostos por 14 meses , por isso não posso ter passaporte , porque não tenho trabalho para pagar impostos .» ( E1 )
A condição de vida da PSSA imigrante configura-se um processo de difícil recuperação dado o intricado de situações , ou seja : sem situação regularizada não consegue emprego com contrato , se não possui contrato não tem contribuições , se não faz ( ou fazem ) contribuições para a segurança social , logo , não pode tratar da documentação para garantir a sua estadia legal e , no entretanto , perde a sua fonte de rendimento e o seu ‘ espaço de segurança ’– perde a casa , recursos financeiros para
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