Pés no Chão Pés no Chão | Page 146

o terreno, faziam a casa dos fundos para a frente. Meia- água, era o que se ouvia. Como os pais trabalhavam fora, a gente se agarrava com os vizinhos, que nos serviam Toddy e pão bundinha. Num lugar assim, uma velhinha portuguesa, sempre de preto, posta em brincos, coques, terços e conversa engraçada, desconhecia o anonimato. Perguntei para a turminha – que é muito desenvolta – se, por acaso, o São Dimas era mais ou menos assim, uma Vila Cubas dos anos 2000. Entre um queixume e outro (a falta de praças e de asfalto, a bandidagem, por exemplo) confirmaram as semelhanças. Dão-se com vizinhos. Os pais se empenham na compra de sacas de cimento. E, sim, acreditam, há donas Matildes por lá, e nunca morrem em silêncio. Suspeito que vão escrever sobre elas, postando-as para a eternidade. José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário 146