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We'll always have cinema
Catarina Oliveira
Cinema
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Estará a magia do cinema a morrer?
Segundo a PorData, cada sessão de cinema teve (este ano? No ano passado) em média 23,4 espectadores, bem menos que os 57 que ocupavam as salas de cinema no ano de 1994. É claro que o cinema e a forma como o vemos evoluiu muito ao longo destes anos, com base na providência aos seus espectadores de uma melhor experiência e mais confortável. Hoje somos nós quem manda, vemos o que quisermos e quando quisermos, sem quaisquer imposições de publicidade ou esperas aparentemente intermináveis para aquelas estreias incríveis. Mas não terá este mesmo facilitismo manchado aquilo que era a experiência de ver cinema? Afinal, é a singularidade e escassez dos acontecimentos que lhes confere o seu valor.
Quererá isto dizer que o cinema perdeu o seu valor? Esta é uma pergunta a pedir uma resposta em rasteira. Isto porque o valor que atribuímos às coisas está dependente de inúmeras características pessoais, como a nossa personalidade, gostos, ou experiências de vida, e não podemos assim, fazer uma conclusão generalizada. Mas o que é um facto, é que hoje temos o cinema à mão. As câmaras são os nossos olhos e o guião a nossa mente. Apesar de existirem obras brilhantes, a actividade de ver cinema deixou de ser um evento social para ser uma banalidade, ou um elemento adicional do nosso dia-a-dia. A expectativa, as gargalhadas em uníssono, os suspiros e os sustos deram lugar a salas escuras e nostálgicas que hoje ecoam ausência.
Disto não podemos responsabilizar o cinema, que sempre teve coisas boas para nos dar. Mas sim a sociedade em mutação constante e a crescente preguiça e comodismo de cada um de nós. Cada vez mais somos uma sociedade que privilegia aquilo que é fácil, já não ambicionamos ir tão longe por algo que está tão perto, e se hoje nos é possível ver filmes, séries, documentários no conforto da nossa casa, então pouco será o esforço que estaremos dispostos a fazer para nos dirigirmos a uma sala de cinema e pagarmos a favor do nosso entretenimento. Esta experiência gratuita, que chega até nós através de variados sites piratas e de downloads ilegais, é prejudicial para a nossa cultura, e para a vida plena da 7ª arte, assim como joga a favor da ideia da “indoor generation”, ou a geração de interiores, que cada vez mais vê no seu lar um abrigo contra o mundo lá fora. E, embora não me seja possível prever o dia de amanhã, acredito que esta situação só poderá piorar. E isto preocupa-me. Preocupa-me a sobrevivência das salas de cinema e a escassez dos seus ocupantes. E sobretudo, preocupa-me esta mentalidade actual que poderá afectar outros sectores para além do cinema.
OPINIÃO
We'll always have cinema
Catarina Oliveira
Cinema
«Afinal, é a singularidade e escassez dos acontecimentos que lhes confere o seu valor»