Pontivírgula - Edição Maio 2018 Pontivírgula - Edição Maio 2018 | Página 31

OPINIÃO

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Aqui e Agora

Teresa Mosqueira

Atualidade

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Quando o amor acabar, nada mais restará

Ignorar a questão da eutanásia seria, no mínimo, imprudente. À data em que vós, caros leitores, contactarem com este texto de opinião, já a despenalização da eutanásia terá sido discutida e votada no Parlamento. É um facto que esta coluna peca pela tardia, mas não é por isso que perde validade: qualquer que seja o desfecho deste lúgubre e dúbio episódio na história portuguesa, a opinião que se segue manter-se-á firme.

Consciente dos poucos e ingénuos anos de vida que conto, nunca antes assisti a uma mobilização tão significativa da opinião pública. O povo português, que tão bem sabe acomodar-se no conforto do seu lar na hora das eleições, saiu à rua para se fazer ouvir. Nunca testemunhara tamanho alento e inconformismo numa gente que há tanto tempo se deixara adormecer no sofá da inércia. Num cenário como este, são visíveis salpicos de tenacidade que vêm colorir o quadro negro que compõe a agenda política de hoje. Foi necessário desafiar por completo as leis da sociedade para que despertássemos da apatia em que estávamos mergulhados.

A morte assistida é um tema que tem feito escorrer muita tinta. Destaco o artigo do deputado do PSD Hugo Soares no jornal Público, em que questiona a decisão do Estado em permitir esta votação sem uma devida discussão prévia. O significado por trás desta medida também é questionável: está em causa uma manobra política e ideológica ou, antes, o revelar de uma sociedade profundamente alterada nos seus valores basilares? Parte da sociedade parece querer formar-se de uma maneira que não é a sua. Aliás, caso a eutanásia seja aprovada, penso que não estará em causa um aumento das liberdades individuais, mas antes um profundo desrespeito pelo maior direito do Homem: o direito à vida. Um Estado que não providencia, mas mata, é um Estado que falha. Um Estado que não valoriza os seus, mas os descarta, fracassa. Um Estado que não ama, mas repudia, não pode ser o Estado português, por muito laico que seja. A política deveria estar ao serviço do Homem. Não está em cima da mesa um assunto de foro religioso, mas sociológico e moral. Reconhecer o valor da vida humana não depende da fé em Deus e do cumprimento dos mandamentos que d’Ele provêm. Infelizmente depende de nós. É fundamental compreender que esta não é uma discussão de credos, mas de valores. E é sobre eles que nos devemos debruçar.

« Um Estado que não providencia, mas mata, é um Estado que falha»