A Estátua da Liberdade, um presente do povo francês ao povo
americano para comemorar o centenário da Declaração de Inde-
pendência de 1776, ainda grita com os lábios silenciosos: “dê-me
suas cansadas, suas pobres, suas amontoadas massas ansiando
por respirar livres...”. Dessa forma, os Estados Unidos abriram
seus braços para ondas de imigrantes empobrecidos.
Naturalmente, a esmagadora maioria era de brancos pobres.
Muitos se opunham aos italianos e aos irlandeses porque eram
católicos ruivos. Em qualquer caso, porém, eles eram vistos como
melhores que os negros. Os negros não conseguiram emigrar da
África, não apenas porque estavam muito mais distantes do que os
europeus, mas também porque eram muito mais pobres e quase
não existiam rotas marítimas para conectá-los a Nova York. Os chi-
neses tinham mais oportunidades de chegar à costa oeste, e talvez
por isso uma lei, aprovada em 1882, proibiu-os de entrar apenas
por serem chineses.
Entendo que essa foi uma maneira sutil e poderosa de refor-
mular a demografia, o que equivale a dizer a composição política,
social e racial dos EUA. O nervosismo atual sobre uma mudança
nessa composição nada mais é do que a continuação dessa mesma
velha lógica. Se não fosse esse o caso, o que poderia estar errado
em fazer parte de um grupo minoritário ou ser diferente dos outros?
Primado do pânico
Claramente, se você é uma pessoa boa e é a favor de aplicar
corretamente as leis, isso não o torna um racista. Você não
precisa ser racista quando a lei e a cultura já são. Em território
norte-americano, ninguém protesta contra imigrantes canadenses
ou europeus. O mesmo é verdade na Europa e até mesmo no Cone
Sul da América do Sul, povoado principalmente por descendentes
de europeus.
Mas todo mundo está preocupado com os negros e as pessoas
híbridas e mestiças do sul. Porque eles não são brancos e “bons”,
mas pobres e “maus”. Atualmente, quase meio milhão de imigran-
tes europeus vivem ilegalmente nos Estados Unidos. Ninguém fala
sobre eles, assim como ninguém fala sobre como um milhão de
cidadãos estadunidenses estão vivendo no México, muitos deles ile-
galmente.
Com o comunismo descartado como desculpa (nenhum des-
ses Estados cronicamente fracassados de onde os migrantes vêm
é comunista), vamos novamente considerar as desculpas raciais e
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Jorge Majfud