“Você não precisa ser racista para defender as fronteiras”, disse
um estudante.
É verdade, notei. Você não precisa ser racista para defender
fronteiras ou leis. À primeira vista, a afirmação é irrefutável. No
entanto, se levarmos em consideração a história e o contexto atual
mais amplo, um padrão abertamente racista nos atacará imedia-
tamente.
No fim do século 19, o romancista francês Anatole France escre-
veu: “A lei, em sua majestosa igualdade, proíbe ricos e pobres de
dormir sob pontes, de mendigar nas ruas e roubar seus pães”. É
preciso ser um elitista para apoiar uma cultura economicamente
estratificada. Você não precisa ser sexista para espalhar o tipo mais
violento de sexismo. Engajar-se sem pensar em certas práticas cul-
turais e expressar seu apoio a uma ou outra lei é quase sempre o
que basta.
Desenhei uma figura geométrica no quadro e perguntei aos alu-
nos o que viam ali. Todos disseram que viram um cubo ou uma
caixa. As variações mais criativas não se afastaram da ideia de
tridimensionalidade, quando na realidade o que desenhei era nada
mais que três losangos formando um hexágono. Algumas tribos
na Austrália não veem a mesma imagem em 3D, mas sim em 2D.
Vemos o que pensamos, e é isso o que chamamos de objetividade.
Padrões duplos
Quando saiu vitorioso da Guerra Civil Americana (1861-1865),
o presidente Abraham Lincoln pôs fim a uma ditadura de cem anos
que, até hoje, todos chamam de “democracia”. No século 18, escra-
vos negros saíram da África para compor mais de 50% da popula-
ção em estados como a Carolina do Sul – mas eles nem eram cida-
dãos estadunidenses, nem sequer gozavam de direitos humanos
mínimos.
Muitos anos antes de Lincoln, racistas e antirracistas propuse-
ram uma solução para o “problema negro” enviando-os “de volta”
ao Haiti ou à África, onde muitos deles acabaram fundando a Libé-
ria (a família de um dos meus alunos, Adja, vem desse país afri-
cano). Os ingleses fizeram o mesmo para “livrar” a Inglaterra de
seus negros. Mas, sob Lincoln, os negros se tornaram cidadãos,
e uma forma de reduzi-los a uma minoria não era apenas dificul-
tando a votação (como a imposição de um imposto), mas também
abrindo as fronteiras da nação à imigração.
O racismo não precisa de racistas
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