Pedras e Demônios pd53 | Seite 67

“Você não precisa ser racista para defender as fronteiras”, disse um estudante. É verdade, notei. Você não precisa ser racista para defender fronteiras ou leis. À primeira vista, a afirmação é irrefutável. No entanto, se levarmos em consideração a história e o contexto atual mais amplo, um padrão abertamente racista nos atacará imedia- tamente. No fim do século 19, o romancista francês Anatole France escre- veu: “A lei, em sua majestosa igualdade, proíbe ricos e pobres de dormir sob pontes, de mendigar nas ruas e roubar seus pães”. É preciso ser um elitista para apoiar uma cultura economicamente estratificada. Você não precisa ser sexista para espalhar o tipo mais violento de sexismo. Engajar-se sem pensar em certas práticas cul- turais e expressar seu apoio a uma ou outra lei é quase sempre o que basta. Desenhei uma figura geométrica no quadro e perguntei aos alu- nos o que viam ali. Todos disseram que viram um cubo ou uma caixa. As variações mais criativas não se afastaram da ideia de tridimensionalidade, quando na realidade o que desenhei era nada mais que três losangos formando um hexágono. Algumas tribos na Austrália não veem a mesma imagem em 3D, mas sim em 2D. Vemos o que pensamos, e é isso o que chamamos de objetividade. Padrões duplos Quando saiu vitorioso da Guerra Civil Americana (1861-1865), o presidente Abraham Lincoln pôs fim a uma ditadura de cem anos que, até hoje, todos chamam de “democracia”. No século 18, escra- vos negros saíram da África para compor mais de 50% da popula- ção em estados como a Carolina do Sul – mas eles nem eram cida- dãos estadunidenses, nem sequer gozavam de direitos humanos mínimos. Muitos anos antes de Lincoln, racistas e antirracistas propuse- ram uma solução para o “problema negro” enviando-os “de volta” ao Haiti ou à África, onde muitos deles acabaram fundando a Libé- ria (a família de um dos meus alunos, Adja, vem desse país afri- cano). Os ingleses fizeram o mesmo para “livrar” a Inglaterra de seus negros. Mas, sob Lincoln, os negros se tornaram cidadãos, e uma forma de reduzi-los a uma minoria não era apenas dificul- tando a votação (como a imposição de um imposto), mas também abrindo as fronteiras da nação à imigração. O racismo não precisa de racistas 65