Boca no trombone
Antonio Machado
O
então deputado Jair Bolsonaro tomou gosto por polêmicas,
toscas em geral, quando, graças a elas, superou 28 anos
de anonimato na Câmara Federal e elegeu-se presidente
da República com poucos recursos e afastado da campanha no
segundo turno, servindo-se da mesma tática nas redes sociais.
O esquema é manjado, baseado no “falem mal, mas falem de
mim”, e foi repaginado inicialmente nos Estados Unidos pelos ideó-
logos da chamada “direita alternativa”, all-right em inglês, ao emu-
lar atitude e retórica dos movimentos de esquerda. Algo como bater
sempre em inimigos reais ou fabricados, o tal “nós e eles”, visando
uma mobilização permanente.
Donald Trump incorporou tal figurino e continua operando o
Twitter, como faz Bolsonaro, admirador confesso do presidente dos
EUA, para difundir notícias reais, polêmicas e absurdas, uma a
duas por dia. Elas pautam a imprensa e colocam os adversários na
defensiva. De algum modo, dispensam-se de tratar o que importa.
Foi assim que, depois de criticado pela divulgação de um vídeo
com cenas de perversões sexuais num bloco de carnaval em São
Paulo, em que pretendia defender a moral, ele apareceu no Face-
book explicando o que já lhe tardava: a reforma da Previdência. Até
que enfim, né?
Em termos. Bolsonaro inseriu um caco na tevê e anunciou,
também, o fim das lombadas eletrônicas, que nem problema é, mal
disfarçando a intenção de dividir as atenções com o tema indigesto
da Previdência.
O fenômeno das redes sociais é dinâmico e pouco entendido. O
fato é que esse espaço livre e sujeito a manipulações sofisticadas
deixou de ser cativo de ativistas de esquerda. Nele, o presidente e o
seu filho Carlos, vereador no Rio de Janeiro, deitam e rolam.
Quanto mais incomodam, mais se mostram satisfeitos. E logo
haverá mais, já que não há político alheio à repercussão nas redes.
Se assim é e será com Bolsonaro, como, aliás, também com os
pré-candidatos a disputar com Trump o governo dos EUA, nas elei-
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Antonio Machado