Pedras e Demônios pd53 | Page 42

Boca no trombone Antonio Machado O então deputado Jair Bolsonaro tomou gosto por polêmicas, toscas em geral, quando, graças a elas, superou 28 anos de anonimato na Câmara Federal e elegeu-se presidente da República com poucos recursos e afastado da campanha no segundo turno, servindo-se da mesma tática nas redes sociais. O esquema é manjado, baseado no “falem mal, mas falem de mim”, e foi repaginado inicialmente nos Estados Unidos pelos ideó- logos da chamada “direita alternativa”, all-right em inglês, ao emu- lar atitude e retórica dos movimentos de esquerda. Algo como bater sempre em inimigos reais ou fabricados, o tal “nós e eles”, visando uma mobilização permanente. Donald Trump incorporou tal figurino e continua operando o Twitter, como faz Bolsonaro, admirador confesso do presidente dos EUA, para difundir notícias reais, polêmicas e absurdas, uma a duas por dia. Elas pautam a imprensa e colocam os adversários na defensiva. De algum modo, dispensam-se de tratar o que importa. Foi assim que, depois de criticado pela divulgação de um vídeo com cenas de perversões sexuais num bloco de carnaval em São Paulo, em que pretendia defender a moral, ele apareceu no Face- book explicando o que já lhe tardava: a reforma da Previdência. Até que enfim, né? Em termos. Bolsonaro inseriu um caco na tevê e anunciou, também, o fim das lombadas eletrônicas, que nem problema é, mal disfarçando a intenção de dividir as atenções com o tema indigesto da Previdência. O fenômeno das redes sociais é dinâmico e pouco entendido. O fato é que esse espaço livre e sujeito a manipulações sofisticadas deixou de ser cativo de ativistas de esquerda. Nele, o presidente e o seu filho Carlos, vereador no Rio de Janeiro, deitam e rolam. Quanto mais incomodam, mais se mostram satisfeitos. E logo haverá mais, já que não há político alheio à repercussão nas redes. Se assim é e será com Bolsonaro, como, aliás, também com os pré-candidatos a disputar com Trump o governo dos EUA, nas elei- 40 Antonio Machado