lesivamente expostos aos fatos antes apontados. Mas há também
os votos tradicionais de direita e os ressentidos, os que ficaram à
parte, há anos, caldo de cultura do antipetismo.
Já no primeiro turno um contingente significativo de votos em
Bolsonaro foi motivado por este sentimento. Tal tendência se amplia
no segundo turno. A diferença da votação de Bolsonaro entre o pri-
meiro e o segundo turno é que um contingente de aproximadamente
8,5 milhões de votos, em boa parte votou em Bolsonaro para evitar
um novo governo do PT. Por outro lado, assinale-se que a diferença
da votação de Haddad entre o primeiro e o segundo turnos, algo em
torno de 15,7 milhões de votos, não foi uma votação no candidato do
PT mas sim uma tentativa de evitar uma provável derrota da demo-
cracia, representada pela vitória da candidatura Bolsonaro.
Assim faz-se necessário reconhecer que boa parte dos eleitores de
Bolsonaro não é de extrema direita. O vasto e diferenciado contingente
de forças - inclusive democratas - que levou Bolsonaro à presidência
não tem uma pauta coerente; vem disposto a empreender uma “revo-
lução liberal e de costumes” porquanto há uma grande desilusão com
o Estado, com a política, com as questões de gênero. Setores dessas
forças querem desfazer parte das conquistas sociais de 1988 e difi-
cilmente se alinhariam a um programa que não contemplasse uma
reforma do Estado com tons liberais. Por conseguinte, não foi apenas
o antipetismo que jogou essa gente nos braços de Bolsonaro.
Este, nos parece, é o quadro de forças delineado pelas eleições.
Mas isto muda quando Bolsonaro toma posse, compõe o governo
e começa a agir. Nos primeiros meses, ele não consegue descolar
do que se poderia chamar de “formato eleitoral”: suas ações são
balizadas pelo confronto com seus adversários políticos; ele não
concentra nos grandes problemas da nação. Privilegia a ação nas
mídias sociais, não age como chefe de Estado. Até seus ministros
mais lúcidos criticam, “em off”, tal comportamento.
Até certo ponto, isto é fruto natural da diversidade de sua base
eleitoral e de sua reconhecida incompetência para governar. Não é
de estranhar que, nestes primeiros meses, as pesquisas de opinião
indiquem uma queda de 15% na aprovação do governo entre aque-
les que o apoiavam.
Mas os democratas de esquerda e de centro, apontando tais
erros, podem e devem propor alternativas. A começar pela neces-
sária reforma da previdência, trabalhando pela aprovação de uma
proposta na qual conste:
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Alfredo Maciel da Silveira; Ricardo Pessoa da Silva; Sergio Augusto de Moraes