Pedras e Demônios pd53 | Page 38

lesivamente expostos aos fatos antes apontados. Mas há também os votos tradicionais de direita e os ressentidos, os que ficaram à parte, há anos, caldo de cultura do antipetismo. Já no primeiro turno um contingente significativo de votos em Bolsonaro foi motivado por este sentimento. Tal tendência se amplia no segundo turno. A diferença da votação de Bolsonaro entre o pri- meiro e o segundo turno é que um contingente de aproximadamente 8,5 milhões de votos, em boa parte votou em Bolsonaro para evitar um novo governo do PT. Por outro lado, assinale-se que a diferença da votação de Haddad entre o primeiro e o segundo turnos, algo em torno de 15,7 milhões de votos, não foi uma votação no candidato do PT mas sim uma tentativa de evitar uma provável derrota da demo- cracia, representada pela vitória da candidatura Bolsonaro. Assim faz-se necessário reconhecer que boa parte dos eleitores de Bolsonaro não é de extrema direita. O vasto e diferenciado contingente de forças - inclusive democratas - que levou Bolsonaro à presidência não tem uma pauta coerente; vem disposto a empreender uma “revo- lução liberal e de costumes” porquanto há uma grande desilusão com o Estado, com a política, com as questões de gênero. Setores dessas forças querem desfazer parte das conquistas sociais de 1988 e difi- cilmente se alinhariam a um programa que não contemplasse uma reforma do Estado com tons liberais. Por conseguinte, não foi apenas o antipetismo que jogou essa gente nos braços de Bolsonaro. Este, nos parece, é o quadro de forças delineado pelas eleições. Mas isto muda quando Bolsonaro toma posse, compõe o governo e começa a agir. Nos primeiros meses, ele não consegue descolar do que se poderia chamar de “formato eleitoral”: suas ações são balizadas pelo confronto com seus adversários políticos; ele não concentra nos grandes problemas da nação. Privilegia a ação nas mídias sociais, não age como chefe de Estado. Até seus ministros mais lúcidos criticam, “em off”, tal comportamento. Até certo ponto, isto é fruto natural da diversidade de sua base eleitoral e de sua reconhecida incompetência para governar. Não é de estranhar que, nestes primeiros meses, as pesquisas de opinião indiquem uma queda de 15% na aprovação do governo entre aque- les que o apoiavam. Mas os democratas de esquerda e de centro, apontando tais erros, podem e devem propor alternativas. A começar pela neces- sária reforma da previdência, trabalhando pela aprovação de uma proposta na qual conste: 36 Alfredo Maciel da Silveira; Ricardo Pessoa da Silva; Sergio Augusto de Moraes