Pedras e Demônios pd53 | Page 33

Uma Constituição híbrida. Chamá-la de “cidadã”, como quis Ulys- ses Guimarães, foi uma licença poética. De 1988 a 2018, 30 anos se passaram. O que se fez em rela- ção à memória da ditadura? Infelizmente, muito pouco. Como em relação à ditadura do Estado Novo (1937-1945), prevaleceu a ideia de que “olhar pelo retrovisor” revolveria “feridas abertas”. É ver- dade que pesquisas foram empreendidas nas universidades e que a mídia divulgou controvérsias. Nada capaz, todavia, de fazer a sociedade ver que a ditadura não era um passado que passara, mas algo que permanecia, atra- vés de seus legados. Não se convocaram as Forças Armadas para um debate sobre suas funções numa sociedade democrática. Ao contrário, só foram chamadas para assegurar a ordem pública, cumprindo papel de polícia, o que só fez aumentar seu prestígio. É certo que uma Comissão Nacional da Verdade funcionou, mas suas resoluções cedo caíram no esquecimento. Enquanto isso políticos e partidos, de esquerda e de direita, compraziam-se em dizer, por motivos variados, que a democracia no país estava consolidada. Seus erros geraram consequências, com o ressurgimento, à luz do dia, das tradições conservadoras e autoritárias que permaneciam subterrâneas, mas vivas. Compreendê-las e superá-las, através do debate e das lutas políticas, é um desafio e tanto. Esconder evidências históricas ou distorcê-las não será um bom caminho para a sempre necessária “democratização da democracia” brasileira. Gostaria agora de explicitar de que ponto de vista falo, pois nin- guém pensa sem premissas ou princípios. Depois de uma longa traje- tória, identifiquei-me com o socialismo democrático, ainda por nascer, a ser alcançado pela persuasão, pela participação e pelo voto, distante do capitalismo, sempre desigual e injusto, e também do socialismo autoritário. Essas referências não devem incidir sobre o que é essen- cial no ofício do historiador – a busca da evidência e da verdade. Atento a isto, Nikita Kruschev, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética entre 1953 e 1964, advertiu que a “história era muito séria para ser deixada nas mãos de historiado- res”. Exprimiu a ambição do Estado de controlar a historiografia e fazê-la serva das “histórias oficiais”. Aos historiadores cabe resistir, afirmando, para além de inter- pretações que podem e devem variar, os compromissos éticos com as evidências e as verdades – por mais fugazes e provisórias que estas sejam, apenas entrevistas como ruínas sob os relâmpagos das tempestades, na bela metáfora de Walter Benjamin. Fantasmas à direita e à esquerda 31