Pedras e Demônios pd53 | Page 162

grande descrédito e não oferece argumentos para a nostalgia. Pelo contrário, a revolução de 1974-1975 é lembrada muito positiva- mente, sendo uma clara vantagem para a imagem da esquerda, especialmente da de seus expoentes mais radicais. No mais, a integração europeia goza, desde o advento da União Europeia, de uma profunda simpatia na população devido ao desen- volvimento notoriamente acelerado da economia, do Estado de Bem-Estar Social e do consumo. Sem dúvidas, o mau desempenho da economia, dentro da União Monetária, e as experiências negati- vas da crise do euro causaram uma grande desilusão. Mas não se registra nem um forte euroceticismo nem uma reação nacionalista. A existência de um Partido Comunista ortodoxo, que conserva 8% dos votos, é citado como outro fator importante porque impede que o proletariado tradicional se volte à extrema direita. Além do que Por- tugal é um país tradicionalmente de imigrantes e está longe dos cha- mados fluxos de refugiados do Mediterrâneo. Portanto, existe uma compreensão e uma compaixão generalizadas frente aos migrantes, não havendo motivos para reavivar temores. E, finalmente, inclusive com a criação do modelo atual de governo, a própria esquerda tem-se mostrado capaz de enfrentar uma tentativa de virada à direita. A principal dúvida é se o desenvolvimento econômico permitirá ou não a continuação da aliança de esquerda nos próximos quatro anos. Segundo Mamede, o FMI, que “apresenta sistematicamente (...) os cenários menos otimistas” para Portugal, prognostica que as taxas reais de crescimento do PIB cairão de 2,3% em 2018 para 1,3%, em 2023. “Sem dúvida, de acordo com os mesmos prognósti- cos, o Estado português poderá cumprir com as principais normas orçamentárias da UE, enquanto que a despesa primária corrente (que inclui o gasto em educação, saúde e assistência social) e o investimento público superarão a taxa de inflação, cada ano”. Conclui-se que, de acordo com as condições macroeconômicas, deveria ser possível continuar a cooperação da esquerda depois das eleições parlamentares programadas para o dia 6 de outubro de 2019, sempre que, como se espera, alcance um total de entre 55% e 60% dos votos. Até o momento, os integrantes da aliança não têm feito comentários sobre o futuro da cooperação, depois das elei- ções de outubro. São possíveis vários cenários: a continuidade do modelo atual de um governo único do PS com apoio parlamentar do bloco da esquerda e possivelmente também do Partido Comunista; um governo de coalizão do PS e o bloco da esquerda; ou inclusive um governo em minoria do PS que não forme nenhuma aliança e governe com maiorias cambiantes. 160 Reinhard Naumann