grande descrédito e não oferece argumentos para a nostalgia. Pelo
contrário, a revolução de 1974-1975 é lembrada muito positiva-
mente, sendo uma clara vantagem para a imagem da esquerda,
especialmente da de seus expoentes mais radicais.
No mais, a integração europeia goza, desde o advento da União
Europeia, de uma profunda simpatia na população devido ao desen-
volvimento notoriamente acelerado da economia, do Estado de
Bem-Estar Social e do consumo. Sem dúvidas, o mau desempenho
da economia, dentro da União Monetária, e as experiências negati-
vas da crise do euro causaram uma grande desilusão. Mas não se
registra nem um forte euroceticismo nem uma reação nacionalista.
A existência de um Partido Comunista ortodoxo, que conserva 8%
dos votos, é citado como outro fator importante porque impede que o
proletariado tradicional se volte à extrema direita. Além do que Por-
tugal é um país tradicionalmente de imigrantes e está longe dos cha-
mados fluxos de refugiados do Mediterrâneo. Portanto, existe uma
compreensão e uma compaixão generalizadas frente aos migrantes,
não havendo motivos para reavivar temores. E, finalmente, inclusive
com a criação do modelo atual de governo, a própria esquerda tem-se
mostrado capaz de enfrentar uma tentativa de virada à direita.
A principal dúvida é se o desenvolvimento econômico permitirá
ou não a continuação da aliança de esquerda nos próximos quatro
anos. Segundo Mamede, o FMI, que “apresenta sistematicamente
(...) os cenários menos otimistas” para Portugal, prognostica que
as taxas reais de crescimento do PIB cairão de 2,3% em 2018 para
1,3%, em 2023. “Sem dúvida, de acordo com os mesmos prognósti-
cos, o Estado português poderá cumprir com as principais normas
orçamentárias da UE, enquanto que a despesa primária corrente
(que inclui o gasto em educação, saúde e assistência social) e o
investimento público superarão a taxa de inflação, cada ano”.
Conclui-se que, de acordo com as condições macroeconômicas,
deveria ser possível continuar a cooperação da esquerda depois das
eleições parlamentares programadas para o dia 6 de outubro de
2019, sempre que, como se espera, alcance um total de entre 55%
e 60% dos votos. Até o momento, os integrantes da aliança não têm
feito comentários sobre o futuro da cooperação, depois das elei-
ções de outubro. São possíveis vários cenários: a continuidade do
modelo atual de um governo único do PS com apoio parlamentar do
bloco da esquerda e possivelmente também do Partido Comunista;
um governo de coalizão do PS e o bloco da esquerda; ou inclusive
um governo em minoria do PS que não forme nenhuma aliança e
governe com maiorias cambiantes.
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Reinhard Naumann